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A influência do tipo de piso nas lesões de atletas de MMA

Dojô japonês clássico: tatame confeccionado com palha de arroz prensada.



Com a evolução do MMA e com a prática do cross training (treinamento de várias modalidades) tenho observado que, de modo geral, os atletas invariavelmente estão realizando seus treinamentos em diversos tipos de piso: tatames sintéticos de encaixe confeccionados com borracha, tatames em placa "recheados" de raspas de pneu, lonas recobrindo raspas de pneu, piso de cimento, etc. Na maioria das vezes se credita às lesões em situação de treinamento, somente aos aspectos técnico-táticos. Contudo, em alguns artigos recentes, observei que os autores tem relacionado lesões com o tipo de piso em que o atleta treina. Portanto, considero relevante aprofundar um pouco mais sobre esse tema.

Na parte do treinamento de MMA referente a técnicas de solo e projeção, em estudo recente (Cunha Júnior, 2009), realizado com 57 praticantes de Jiu-Jítsu, o autor observou relação entre o tipo de piso com a lesão de membros inferiores. 70% das lesões no joelho foram associadas ao tatame de lona coberta (preenchido com raspas de pneu). 100% das lesões no tornozelo foram associadas à tatames sintéticos de encaixe, confeccionados com borracha.

Em outro artigo (Santos e Melo, 2003), foi verificado o tipo de piso preferido por 86 judocas ao praticarem técnicas de projeção e de solo. Os autores observaram que, mesmo havendo controvérsias nas justificativas para as preferências do tipo de piso, o piso sintético foi o que obteve maior preferência para os treinamentos em pé e em competições; entretanto, os atletas reportaram preferir o piso de palha para técnicas de solo. A sugestão dos autores foi, então, buscar uma forma de associar o material sintético à cobertura feita de lona de algodão do tatame de palha e, desse modo, satisfazer as necessidades dos atletas dessa modalidade.

Já no segmento de golpes traumáticos, em estudo recente (Cavalheiro e Toigo, 2009), foram associadas técnicas de chute, tipo de piso e lesões nos membros inferiores. Foi perguntado em que tipo de piso os atletas estavam treinando atualmente. 63,2% dos atletas responderam que treinam em piso emborrachado de EVA. O restante dividiu-se entre piso de madeira (16,1%); piso de lona (12,6%) e piso de lajota (tipo cerâmica, porcelanato) (5,7%). 2,3% disseram que praticam a atividade em mais de um tipo de piso pelo fato de variarem o local de treinamento.

Quando questionados a respeito dos tipos de piso onde perceberam maior dificuldade para realizar os movimentos pertinentes à golpes traumáticos, os atletas responderam: a) no piso de madeira (25%,3); b) não tiveram dificuldade (17,2 %); c) no piso de EVA (12,6%), d) no piso de lajota (10,3%); e) no carpete (8,0%); f) no piso de lona com raspas de pneu (8,0%); g) no piso de cimento (5,7%); h) na areia (2,3%); i) no tatame de palha (1,1%) e j) em mais de um tipo de piso (1,1%). 8,0% dos atletas não responderam a esta questão.

As principais dificuldades reportadas pelos atletas em relação ao piso foram: a) deslizamento (32,2%); b) travamento (24,1%); c) outras dificuldades não especificadas (8,0%); d) instabilidade, que acaba dificultando o equilíbrio (4,6%); e) maciez excessiva (3,4%); f) emendas (2,3%) e g) não tiveram dificuldades (1,1%). 24,1% dos atletas não responderam a esta questão.

Resultados, Conclusão e Considerações finais

O piso de madeira foi mais associado ao deslizamento (85,4%). Esta associação é corroborada pelo fato desse tipo de material apresentar baixo coeficiente de atrito dinâmico.

O piso emborrachado de EVA foi associado ao travamento (46,4%). Este material possui um coeficiente de atrito dinâmico maior que o da madeira.

O carpete foi associado ao travamento (45,0%) em função de também ter um alto coeficiente de atrito dinâmico; contudo, atualmente, este piso já não é mais comumente usado.

O cimento é outro tipo de piso que foi relacionado ao travamento (com 43,8%), provavelmente, pela sua característica porosa, com possibilidade de aumentar o atrito dinâmico entre o piso e a pele.

A lajota foi correlacionada ao deslizamento (54,2%), pelo fato de ser um piso muito liso.

O piso de lona com raspas de pneu foi associado ao travamento (55,0%), por ser, também, um material emborrachado, porém está igualmente relacionado com a instabilidade (25%), que pode conduzir à dificuldade de equilíbrio. Esta falta de estabilidade foi explicada pela utilização de retalhos de pneu prensados embaixo da lona, ou, em muitas casos, pela utilização de tatames de palha alinhados um ao lado do outro, forrados com a lona. A junção das placas de tatame pode provocar quedas bruscas, uma vez que o lutador está sujeito a posicionar inadequadamente seu pé em uma emenda.

A areia foi correlacionada com o travamento (30%) e ao fator maciez (25,0%), principalmente quando se trata da prática em areia fofa de praia.

O tatame de palha foi associado ao travamento (37,5%).

O piso de madeira foi associado a mais de uma lesão (34,4%), em razão de ser o piso de maior deslizamento. Já o emborrachado de EVA, foi correlacionado à entorse (13,6%), luxação (13,6%), distensão muscular (13,6%), inflamação (13,6%), rompimento de menisco (13,6%), bem como múltiplas lesões (13,6%).

O piso forrado com carpete foi associado à distensão muscular (25,0%), o de cimento às entorses (25,0%), o de lajota à contusão (18,8%) e a mais de uma lesão (31,3%), e de lona com raspas de pneu à entorse (21,4%) e à distensão muscular (21,4%).

Evidenciou-se que o piso de EVA (borracha) está associado ao maior número de lesões. Os autores afirmaram que, as lesões ocorrem com mais freqüência no tatame emborrachado, pois os mecanismos causadores dessas lesões, compatíveis com o alto coeficiente de atrito (por exemplo, cargas de torção por travamento do pé), foram mais associados a esse tipo de piso. Vale lembrar, resumidamente, que entorse é o ato ou processo de torcer ou girar em torno de um eixo no qual são lesados os ligamentos e a membrana.

Concluo esse artigo com o alerta para técnicos e atletas de MMA: evite treinar golpes traumáticos sobre piso do tipo emborrachado EVA. Atenção quanto aos pisos de lona, pois foram associados a lesões no joelho em técnicas de solo. Prefira, nesse caso, o tradicional tatame de palha de arroz prensada ou, se ainda estiver em fase de estruturar o tatame de treino, além de raspas de pneu, utilizar espuma reciclada para aumentar a maciez do piso. Uma alternativa, também, ainda referente ao treino de técnicas de solo, seria adaptar os tatames emborrachados de encaixe do tipo EVA, recobrindo com uma lona, evitando, desse modo, o excesso de atrito típico desse material e o risco de o pé "engatar" nos locais de encaixe. Lembrando que, o excesso de atrito e o "engate" do pé, podem facilmente conduzir a entorses, principalmente no tornozelo.


Leandro Paiva


Referências:

1) Cavalheiro, J.; Toigo, A. Influência do tipo de piso em lesões nos membros inferiores de praticantes de tae kwon do chute bandal tchagui. Revista Digital Efdeportes, ano 14, n.139, Dezembro de 2009.

2) Cunha Júnior, A. Incidência e fatores de risco de lesões musculoesqueléticas em praticantes de Jiu-Jitsu. Monografia de Graduação em Fisioterapia apresentada à Universidade da Amazônia – UNAMA, 2009.


3) Santos, S.; Melo, S. Os “ukemis” e o judoca: significado, importância, gosto e desconforto. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, v.5, n.2, p. 33-43, 2003.


Observação: Clique Aqui, para conseguir obter na íntegra o estudo no qual é associado o tipo de piso com as lesões em praticantes de Jiu-Jítsu

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