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Lutar ou Fugir? A ciência do estresse no MMA


Emelianenko Fedor: atleta de superelite de MMA que apresenta estado emocional calmo com freqüência. Em entrevista, Ricardo Arona declarou que foi o lutador que mais mexeu com seu lado psicológico durante um combate, pois batia pesado no russo, mas em momento algum ele mudava o semblante, aparentando não sentir os golpes.


O Prof. Dr. Walter Bradford Cannon, Fisiologista da Universidade de Harvard – E.U.A., foi o pioneiro ao teorizar que os animais reagem às ameaças com uma descarga comum do sistema nervoso, ocasionando com que permaneça e lute ou fuja para se defender. Essa teoria é conceituada popularmente como Fight or Flight ou, em Português, reação de lutar ou fugir. Também é denominada na literatura científica de reação de estresse agudo.

Fisiologicamente, a reação de estresse agudo pode ser explicada como uma sequência de “acontecimentos” bioquímicos iniciada pelo sistema nervoso simpático. Ele descarrega na corrente sanguínea maior quantidade dos hormônios adrenalina e noradrenalina. Esses hormônios são responsáveis por uma série de reações: aumento da frequência cardíaca e respiração, e diminuição do volume de sangue em diversos segmentos corporais. No entanto, o volume sanguíneo é aumentado nos músculos, cérebro e coração (vasodilatação). Ainda, no campo psicofisiológico, aumenta a percepção para comportamentos espontâneos ou intuitivos, facilitando resposta motora de fuga ou combate.

Apesar de na história da evolução do homem, o cérebro ter desenvolvido esses mecanismos de resposta imediata a situações de risco em razão de sobrevivência, diferente de outros animais sob ameaça ou estímulo externo, como o ataque de um predador, o homem é capaz de produzir em si reação de estresse agudo, mesmo sem ameaça de risco iminente. Para isso, basta que imagine intensamente situações-limite de combate ou fuga, que produzirá pensamentos capazes de despertar conflitos íntimos e emoções negativas. Essas situações disparam este mecanismo de defesa, elevando o nível de estresse. Além dessas, situações novas ou inovadoras (vividas ou imaginadas) também podem provocar esse sistema, tornando o indivíduo agressivo, lutando contra a idéia, ou tímido e/ou introspectivo, aceitando passivamente. Em muitos casos ocasiona mudança de hábito e exige um grau tão profundo de introspecção, que pode emergir conflitos emocionais não solucionados.

No caso de atletas de MMA, a reação de Lutar ou Fugir pode ser interpretada sob um paradoxo: como fugir se a situação-limite tem dia, hora e local marcado e foi o próprio lutador que, conscientemente, optou pelo “perigo”?

Baseados nesse fato, quando já constituído (confirmação do combate), observamos que, dentre outros, podem ser verificados sinais de estresse agudo, claro, no próprio evento, momentos antes de lutar, com reflexos positivos ou negativos na luta subsequente. Contudo, essa situação-limite pode ser iniciada dias antes, imaginada intensamente pelo atleta e, como uma bola de neve, aumentar sem precedentes de modo que o estresse seja insuportável, ocasionando a derrota muito mais por fatores psicológicos do que técnico-táticos ou físicos.

Pelo fato de vivenciar situações de estresse em decorrência de sua imaginação, dias antes do combate, o atleta pode ter o ciclo de sono afetado, aumentando a fadiga e diminuindo a completa restauração. Além disso, dores de cabeça causadas por tensão, preocupação constante, problemas intestinais, baixa função imunológica, irritabilidade, ataques de raiva e falta de concentração.

Ao observarmos os dados do maior estudo (Ribeiro da Silva, 2009) já realizado para identificar características de personalidade de atletas de elite de MMA, verificamos que, de modo geral, os lutadores lidam bem com situações estressantes. Por outro lado, pode ser que evitem tornar público as situações imaginadas, incutindo em maior introspecção. Na análise de dados parciais, observou-se a característica de controle/resistência à pressão. Foi verificado que os atletas optam por dosar a energia dispensada ao longo do dia, numa estratégia de controle constante. Os resultados indicaram também índices elevados de controle (energia gasta para evitar situações que geram raiva), o que pode indicar que atletas de MMA de alto rendimento evitam confrontos fora do ambiente esportivo.

Já em outro estudo (Ferreira Filho e Maccariello, 2009), foi verificado que grande parte dos atletas mais experientes (maior cartel) e que venceu os combates, reportou estado emocional “calmo” antes da luta. O que mais provocava medo ou ansiedade era o maior cartel de lutas do adversário. Foi observado o inverso com atletas menos experientes (menor cartel). Nesse grupo, grande parte perdeu os combates e reportou estado emocional “tenso”, “agressivo”, “agitado” e/ou “ansioso”. O que mais provocava medo ou ansiedade, além do maior cartel de lutas era o porte físico do adversário.

É relevante ressaltar que, evitar situações estressantes, além de ser praticamente impossível, é pouco saudável. Quando o estresse é mantido sob controle, ou seja, o lutador percebe como algo não debilitante, torna-se força positiva (e poderosa) que ajuda a melhorar o desempenho e a eficiência, mantendo-o alerta e menos sujeito a riscos. Afinal, são essas situações estressantes que ajudam a elevar a temperatura, aumentar a transpiração e preparam o organismo do lutador para o combate iminente, mantendo-o em estado de alerta até que o evento termine. É exatamente essa situação que podemos observar no vídeo (para assistir clique Aqui), realizado momentos antes de Ricardo Arona entrar para lutar.

Quando o estresse é percebido como algo debilitante ocorre exatamente o oposto: o atleta piora o rendimento em razão, principalmente, do desperdício de energia por fatores emocionais. Como exemplo recente, podemos citar o caso do excelente atleta Lúcio Linhares, que perdeu em sua luta de estréia no UFC para o prodígio “Toquinho”. Segundo informações divulgadas pela imprensa especializada (Cruz, 2009), Lúcio já tinha passado pelos maiores ringues do mundo, mas a estréia no UFC foi algo que ele nunca havia imaginado. Ele revelou que a maior dificuldade na luta contra “Toquinho”, foi a adrenalina e declarou: “Fiquei um pouco nervoso com minha estréia, coisa que não acontecia há muito tempo. Acho que foi o efeito UFC... Dezenove mil pessoas assistindo sua luta afeta um pouco”.

Recomendações práticas baseadas em artigos na área de Psicologia do Esporte, para o lutador lidar adequadamente com situações de estresse:

1) Identificar as características pessoais do atleta e perceber suas mudanças de comportamento (físico e psicológico) em ambientes estressantes e não estressantes e ajudá-lo a desenvolver confiança em referência àquela situação mais estressante;

2) Lutadores altamente confiantes como Ronaldo Jacaré, por exemplo, tendem a interpretar a ansiedade antes de uma luta como algo positivo e estimulante em vez de debilitante. Portanto, duas considerações relevantes para aumentar a confiança no atleta: criar ambiente positivo e estabelecer orientação positiva para os erros do atleta;

3) Aprender a controlar a respiração e realizar movimentos para aliviar as tensões musculares dos ombros, costas, pescoço, etc;

4) Treinar a confiança por meio de simulações nos treinos, dentre outros objetivos, para ensinar o atleta a se comportar diante de situações-limite. Por exemplo, propor ao atleta já fadigado no treinamento: “Você está no último round (considerando-se 3 rounds), com a torcida toda contra você. Ganhou o primeiro e perdeu o segundo round. Está perdendo o terceiro e falta apenas 40 segundos para terminar. Nocauteie ou finalize agora seu adversário”. Essa é apenas uma estratégia-exemplo, dentre tantas, que ajuda o atleta a aprender a lidar sob situação de pressão, permitindo aumentar sua confiança em momentos cruciais.

Leandro Paiva


Referências:

Cruz, G. Lúcio Linhares e o nervosismo na estréia. Disponível em: http://www.tatame.com.br/2009/12/15/Lucio-Linhares-e-o-nervosismo-na-estreia

Ferreira Filho, R.; Maccariello, C. A preparação psicológica no esporte de alto nível. Sua importância no desempenho competitivo de lutadores de Mixed Martial Arts MMA). Revista digital Efdeportes, Ano 13, n.129, fevereiro de 2009;

Paiva, L. Pronto Pra Guerra: Preparação Física Específica para Luta & Superação. Amazonas: OMP Editora, 2009;

Ribeiro da Silva, J. Características de Personalidade de Atletas de Alto Rendimento Praticantes de Vale Tudo/Mixed Martial Arts. Pesquisa de iniciação científica em Psicologia - Faculdade Metropolitana de Londrina, 2009.

Observação: No livro Pronto Pra Guerra, foi publicado o mais completo manual de técnicas de preparação psicológica para atletas de Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate.

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