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Se antecipando às ações do adversário



Pense na seguinte situação:

No MMA, é mais um dia difícil de treino. Na simulação de combate competitivo (sparring), seu adversário (ou melhor, companheiro de treino) é instruído a utilizar repetitivamente uma sequência de socos como isca, para fechar a distância em você antes de jogar um direto de direita no seu queixo. Novamente, ele avança com mais um soco. Suas mãos podem até defender. Ele começa a jogar outra, mas de repente ele muda e joga um gancho de esquerda abaixo das costelas inferiores - e acerta seu fígado.

Você estava prestando atenção. Estava acompanhando os padrões dele. Entretanto, o que aconteceu?

Mal falando, a antecipação é como uma previsão. É a sua capacidade de determinar o que vai ocorrer. É também uma característica física que demanda habilidade de percepção bem específica. Nas lutas, sua perícia na defesa depende de quão bem você vai se antecipar ao adversário, interpretanto as ações dele e escolhendo com sabedoria (em frações de segundos), a melhor resposta. Além disso, como - e quão rapidamente - você executará a ação.

O bloqueio de um cruzado, por exemplo, é na realidade o resultado final de um complexo processo psicológico. Por meio de interpretação e percepção dos movimentos oculares de seu oponente é possível apresentar em contrapartida várias sugestões de ações, dinâmicas e velozes.

Os olhos fixam em uma ou mais pistas que podem sinalizar a intenção de um oponente. Assim, o sistema visual põe essas pistas em contexto para perceber a profundidade, velocidade e trajetória, enviando sinais para áreas relevantes do cérebro para interpretá-los. O cérebro percebe que tipo de ações pode sinalizar as pistas, então escolhe o que parece mais provável. Instantaneamente, ele gera um menu correspondente de respostas, e escolhe o melhor para a situação. Na sequência, envia a substância química necessária e mensagens elétricas por intermédio do sistema nervoso para executar essa resposta.


Ações "desonestas" - como fintas - são sinais que indicam uma ação, quando algo é realmente pretendido. De certo modo, podemos afirmar que um combate corporal entre dois indivíduos é uma "guerra de percepção".

Diversos psicólogos e cientistas do Treinamento Desportivo têm estudado como se processa a antecipação de habilidades motoras e esforços atléticos. Muitas vezes, nos estudos são comparados os desempenhos de atletas experientes com os novatos para descobrir o que faz com que alguns sujeitos sejam melhores do que outros nos movimentos típicos de luta, contra um adversário.

Velocidade e agilidade (apesar de serem treináveis, são bem delimitadas por fatores genéticos), obviamente, tem algo a ver com a experiência de antecipação, mas não é apenas isso que influencia o tempo de reação. Em algumas pesquisas descobriram que o tempo de reação simples - necessário para responder a um estímulo-alvo - é bem similar entre atletas experientes e iniciantes. Mas a defesa nas artes marciais exige mais do que um tempo de reação simples: depende da reação a estímulos variados e complexos.

Para antecipar um ataque do adversário, temos de saber que tipos de pistas para procurar, para poder vê-los e interpretar o que esses sinais podem nos dizer. A acuidade visual é relevante; contudo, não basta uma boa visão.

A dinâmica da acuidade visual - a capacidade de perceber com precisão objetos em movimento - é uma obrigação. Comportamentos de busca visual também desempenham papel fundamental. São os padrões e as velocidades em que seus olhos se fixam e assimilam sugestões de movimentos em particular. Depois de fixar os olhos em alguma coisa, seu campo focal de visão estreita em um ângulo de cerca de três graus.

Você tem de confiar muito na visão periférica, em particular para a detecção de movimento. Finalmente, há os sinais em si - o que afinal você está procurando? Novamente, alguns estudos verificaram que a principal diferença entre os atletas mais experientes e os novatos na antecipação de ações do adversário (com larga vantagem nesse contexto para os mais experientes) é que muitas vezes eles olham para pistas diferentes.

O que parece ser mais importante com relação a percepção não é a boa visão ou necessariamente o que eles vêem, mas como utilizam a informação que percebem. Nas modalidades esportivas de combate, simples alterações posturais do oponente fornecem algumas das melhores informações sobre as suas intenções. Às vezes, esse aprendizado é adquirido pela compreensão da biomecânica da técnica. Por outro lado, pode ser compreendido também por padrões perceptuais mais exigentes, como no âmbito de um adversário específico.

O que tende a distinguir os especialistas na "guerra de percepção" dos combates é a capacidade de antecipar como os sinais de um oponente se relacionam com suas intenções, ou melhor, suas habilidades antecipatórias superiores. Lutadores experientes tendem a ser capazes de identificar um ataque do adversário e os padrões de defesa com muito mais rapidez, facilidade e precisão do que seus colegas iniciantes. Eles aprenderam com a experiência de treinamentos e competições por anos a fio, que as ações são mais propensas para seguir do que as sugestões. Também conseguiram adaptar esse conhecimento para que seja melhor observado algum adversário atual. Possuem desempenho superior na seleção de resposta diante das ações do adversário, contribuindo para melhor decisão tática.

Como melhorar a experiência perceptiva? Com bastante prática, principalmente. O que é mais útil, entretanto, é a prática com retorno de informações (feedback). Obter feedback de seu parceiro de treino (sparring) e/ou outro observador sobre como você pode telegrafar suas ações.

Outra forma de melhorar a antecipação às ações do adversário é escolher um determinado período - de uma a duas vezes por semana - no qual você vai se concentrar em aprender a se antecipar ao adversário. Como regra geral, não é para ser analítico e ficar parado em frente a um adversário, pensando em como se antecipar.

Depois de um intervalo para descanso, minutos após o sparring, deve haver pausa para refletir sobre o que você observou e aprendeu sobre isso. Em seguida, realize nova simulação de combate (sparring). Use esse combate como forma de testar as hipóteses ou teorias que desenvolveu sobre as sugestões de seu oponente. Por meio de tentativa e erro veja o que funciona. Depois, reflita novamente alguns minutos, tentando visualizar padrões específicos de sinalização do adversário. Após isso, desligue a parte analítica e tente fluir naturalmente a sessão de sparring, sem pensar em nada, só ação e reação.

Leandro Paiva


Referências:


1) Borum, R. Anticipating Your Opponent’s Action. Black Belt Magazine, 2009;

2) Paiva, L. Pronto Pra Guerra: Preparação Física Específica para Luta & Superação. Amazonas: OMP Editora, 2009.


Observação: No
livro Pronto Pra Guerra, apresentamos diversas metodologias de preparação física, psicológica e técnico-tática para ampliar a capacidade de antecipação às ações do adversário.

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