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Entrevista com Martin Rooney







2004 /2008/ 2010 (sucessivamente).


Não é segredo para ninguém que utilizei como referência, dentre muitas outras (mais de 400), para constituir meu quebra cabeças - meu livro, "Pronto Pra Guerra"-, as obras escritas pelo preparador físico norte-americano Martin Rooney. Suas obras são referencial prático de suas experiências com tentativa e erro do que já funciona (ou pode funcionar) no repertório de exercícios utilizados na preparação física de lutadores. O primeiro livro, escrito e editado por ele em 2004 (vide figura acima), conservava maior característica referencial (teórica) comparado aos dois que o sucederam em 2008 e, agora, em 2010. Esses dois últimos (veja acima as figuras das capas), contém bem mais conteúdo prático.

Adquiri recentemente o de 2010 e fui brindado com uma bela surpresa: quando imaginei que já havia esgotado ou próximo disso, o repertório de exercícios que poderia ser utilizado no Jiu-Jítsu e MMA, Martin, resolveu viajar pelo mundo e coletar em detalhes "novos" exercícios aprendidos em cada escola tradicional em sua arte marcial, luta ou modalidade esportiva de combate. Assim, no Japão, por exemplo, visitou a tradicional escola Kodokan (Judô), dentre outras escolas tradicionais ao redor do planeta, onde pode adquirir e compartilhar conhecimentos e novos exercícios, que não foram publicados em sua obra anterior (publicada em 2008).

Apesar de no meio das lutas, dispensar apresentações, mais recentemente estamos estreitando os laços e parceria, e, desse modo, para coroar este artigo, reproduzo adiante a tradução de uma entrevista fora de série que exemplifica bem sua história e modo de pensar relacionado ao preparo físico, além de outros fatores associados ao sucesso de lutadores.

Leandro Paiva




Martin, você é um treinador de atletas profissionais em todos os esportes, incluindo as artes marciais mistas (MMA). Quando surgiu seu interesse no treinamento de força e condicionamento?

MR: Mesmo bem jovem, eu sempre soube que trabalharia com desempenho e fitness. Eu tinha uns pesos em casa desde os dez anos. Caí no amor pelos ferros aproximadamente nessa época. Depois da minha primeira caixinha Joe Weider (suplemento de bolachas de proteína) e uma cópia da revista Flex Magazine, eu não perdi mais de 3 dias seguidos sem treinar com pesos desde então.

Adolescente, comecei a levantar peso com os caras mais velhos do meu bairro e no colégio com os meus treinadores, atrás de uma bolsa para a faculdade. Na faculdade, eu percebi que não era apenas treinamento a minha vocação, eu queria realmente estudá-la! De lá, eu estava no meio do caminho para a minha carreira atual.

Então, de lá, qual foi o caminho que percorreu para se tornar um treinador de força e condicionamento?

MR: Eu tenho trabalhado em minha carreira, reunindo informações, conhecendo personagens interessantes e viajando pelo mundo durante os últimos 20 anos. Descobri que minha paixão era o exercício e a reabilitação. Me pós-graduei em fisiologia do exercício e, em seguida, concluí o mestrado em fisioterapia.

Em 1996, quando eu era atleta, meu companheiro de quarto, Todd Hays, foi medalha de prata olímpica. Todd também era um lutador profissional de MMA, que lutou no Japão. Ele foi protagonista em um documentário sobre artes marciais mistas ("Choke") e, como resultado, fiquei muito interessado em participar do mundo do MMA.

Depois que saí da equipe, em 1998, me mudei para Utah e depois para New Jersey e descobri por meio de um amigo que, Renzo Gracie, membro de uma das famílias mais famosas da história da luta, se mudou do Brasil e abriu uma academia de Jiu-Jitsu em New York City, não muito longe da minha casa.

Criei coragem, comecei a treinar e era espancado (risos). Depois de alguns meses, estava sendo reconhecido por ser muito forte e atlético. Renzo me perguntou se eu poderia treiná-lo para uma luta. Então eu comecei a treiná-lo, juntamente com centenas de outros atletas profissionais de vários esportes diferentes na minha empresa, a Speed Parisi School.

Foi assim que surgiu seu método intitulado "Treinamento para Guerreiros"?

MR: Quando Renzo começou a treinar na minha Parisi Speed School, ele mudou seu físico e foi ganhando títulos mundiais e o ADCC. Um amigo de Renzo, o príncipe de Abu Dhabi, xeque Zayed Bin Al Tahnoon teve interesse no que estávamos fazendo e me fez voar para Abu Dhabi para lhe mostrar meus métodos de treinamento.

Após esta viagem bem sucedida, ele começou a me recomendar para diversos atletas. A partir daí, meu método se originou e foi desenvolvido. Comecei a trabalhar com centenas de lutadores tops do mundo todo e realizando tentativa e erro ao longo desse período, excluindo depois, o que apliquei, mas não funcionou, para produzir performances de nível internacional.

Durante este tempo, eu também fui nomeado para o conselho editorial da revista Gracie Magazine, no Brasil, e continuei com minha formação em artes marciais. Agora, 10 anos mais tarde, sou faixa roxa no Jiu-Jitsu e faixa preta no Judô e estou muito orgulhoso com o que alcancei.



O que te inspirou a escrever o livro Training for Warriors (Treinamento para Guerreiros)?

MR: Já ouvi antes a frase: qualquer coisa que vale a pena fazer na vida tem de registrar. Este livro é o meu testemunho a todos os atletas do trabalho duro e das lições que aprendemos ao longo do caminho.

Eu acredito que uma excelente forma de avançar na vida é construir a partir das experiências dos outros. Este livro foi criado para ajudar outros atletas a fazer exatamente isso. Simplificando, quando as informações são acessíveis a todos, todos ganham.

Que tipo de insights (ideias) você teve após trabalhar com equipes de atletas de MMA e não somente com os atletas, individualmente?

MR: Ao trabalhar com equipe, consegui ser capaz de individualizar a formação de muitos atletas diferentes. Uma vez que a equipe tinha membros de diferentes pesos, estilos e idades, tive de criar rotinas em torno deles. Esses exercícios foram equilibrados baseados em suas programações, próximo das lutas.

Desde o lançamento dos livros, você tem realizado cursos e seminários ao redor do mundo. O que você apresenta nesses locais?

MR: Nos seminários TFW, que pode durar de 1-3 dias, eu cubro a maioria dos conceitos que são descritas no livro. Esses conceitos variam de preparação mental, treinamento físico, manipulação de peso e nutrição para a luta.

Os seminários são divididos em seções de palestras teóricas e sessões práticas. Acabei de voltar recentemente da Finlândia e México.

Agora vamos a algumas ideias de treinamento no MMA. O atleta típico só pode ter três horas semanais para levantar pesos, correr ou realizar qualquer outra coisa relacionada a força e condicionamento? Se esse é todo o tempo que tem, o que você recomendaria para se concentrar?

MR: O atleta pode dividir isso em 3 treinos semanais. Gosto de separá-los em: seg/qua/sex durante a semana e, dentro disso, trabalho no atleta a parte de sua fraqueza mais evidente (força ou resistência).

Se força é a limitação, 2 dos treinos semanais são realizados com esse objetivo e vice-versa, no caso de resistência. Dessa forma, o atleta pode ainda fazer progressos na sua aptidão pessoal e adaptar o treinamento em sua programação.

Você acha fundamental a força e o condicionamento de um lutador, comparando com a parte técnica?

MR: Eu acredito que o treinamento físico é a próxima revolução na evolução do MMA. Eu queria abrir os olhos de todos para o fato de que os dias de ser aquele atleta com sobrepeso, ou o cara que não está em plena forma, mas é muito técnico, não cabe mais no MMA atual.

Você tem que ser um atleta incrível (de condicionamento), e você tem que ser extremamente técnico. Há uma batalha constante agora para os atletas de MMA terem as duas coisas, e esse é o derradeiro desafio.

Todo mundo já sabe que você não pode estar fora de forma e não pode ficar sem gás em um round. Então isso prova que não só a preparação física, mas também tem que ter um preparo mental incrível e isso é algo que me ajuda com um monte de lutadores.

Para responder de forma sucinta, sem condicionamento físico um grande lutador não vai ter confiança, e sem força física ele pode não ser capaz de executar as técnicas. Então, sem dúvida, força e condicionamento não é apenas essencial, é fundamental.

O que você acha que é mais importante para o lutador, força física ou condicionamento cardiovascular?

MR: Acho que ambos são importantes, e curiosamente, ambos dependem um do outro. Mesmo que você finalmente esteja pronto para lutar 5 rounds de 5 minutos, se você estiver em uma luta importante, você tem que estar preparado para o que ocorre muitas vezes hoje: a luta terminar entre dez e trinta segundos.

Então você tem que ser capaz de ser forte, explosivo e atacar seu oponente, mas também tem que ser capaz de descansar, recuperar e repetir uma e outra e outra vez, com grande resistência.

Chamamos isso de jogo de luta: é a "arquitetura de luta", na qual você tem que ser capaz de orquestrar a explosão ou os sprints, mas você deve ser capaz de fazê-los, também, por um longo período. O cara que é forte e pode explodir - mas só pode fazer isso por 30 segundos e, em seguida, está em apuros, mesmo que ele tenha sido o lutador mais técnico, ele mostra que o condicionamento físico e mental foi/será a razão para a derrota.

Para melhorar isso, o atleta deve realizar um tipo de treinamento de força e resistência, que mescla sprints repetitivos com levantamento de pesos em uma abordagem sistemática. O lutador de hoje deve ter uma combinação de força e resistência para sobreviver.

Muitas pessoas pensam que no MMA atual, se deva treinar oito horas por dia de parte física. Seu programa de treinamento sugere apenas no máximo quatro dias de treinamento físico, além de todo trabalho técnico para o MMA. Pode falar um pouco sobre isso?

MR: Eu defendo uma divisão de, no máximo, 4 dias, pois permite a recuperação que leva ao progresso. Um dia para membros superiores e outro para a parte inferior do corpo e dois dias de furacão (sprints na esteira mesclados com levantamento de pesos), que são exercícios para o corpo todo, enfatizando força e resistência.

Quando as pessoas me perguntam sobre infinitas horas de treinamento, acredito que um monte de lutadores quer colocar a gravata antes mesmo de vestir a camisa. O que acontece é que esses caras vão ao mar, fazendo longas sessões de formação avançada, mas não constroem a base. O resultado final é overtraining ou deficiências gritantes que eles nunca sabem porque.

Ainda, para responder a essa pergunta, eu acredito no que chamamos de "O Pêndulo de Treinamento", onde não é trabalhado apenas um atributo (força, velocidade, flexibilidade, resistência). Não é assim: vamos trabalhar força durante oito semanas, e, agora, vamos trabalhar velocidade por mais oito semanas. Comigo, trabalhamos tudo isso toda semana, mas estamos focando mais em certos aspectos em dias separados.

Você tem trabalhado com a família Gracie por um longo período. Conte sobre essa experiência?

MR: Tenho aprendido e levado muitas das maiores experiências e lições na minha vida. Eu tenho sido bem recebido pelos membros e viajado pelo mundo com eles, tanto através dos tempos bons e maus.

Durante este intervalo, tenho aprendido grandes lições de disciplina, coragem, honra, lealdade, bondade e integridade. Sem estas lições e esta família, eu certamente não seria o homem que eu sou hoje.

Quais são os elos que faltam para os atletas de Jiu-Jitsu e grapplers em geral?


MR: Bem, isso depende do nível do atleta, tanto tecnicamente como fisicamente. Por exemplo, o Jiu-Jitsu, é uma arte que foi desenvolvida para um pequeno homem derrotar um maior, mais forte. Em função disso, alguns lutadores sacrificam suas capacidades físicas para trabalhar mais a habilidade técnica.

Nos dias de hoje, porém, tanto a técnica como as habilidades físicas são necessárias. Especificamente, a maioria destes atletas não se concentram o suficiente na parte inferior do corpo e no treinamento de resistência. A nutrição é sempre um pouco negligenciada também.

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