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Lutadores e pensamentos negativos


De modo geral, muitos atletas (principalmente os que já estão no alto nível), encaram a derrota como um momento de aprendizagem, a oportunidade de rever todo o histórico de lutas anteriores, analisar a carreira e a luta em que perdeu e, também, encarar novas possibilidades e trabalhar as brechas em seu jogo.

No entanto, alguns atletas (principalmente nos níveis iniciante e intermediário), são tomados por pensamentos recorrentes negativos. Muitas vezes esses pensamentos fogem ao controle tornando-se insuportáveis e prejudicando a preparação técnico-tática e física, por minar a confiança do atleta em suas ações.

A mente “fala” conosco constantemente e, por isso, o atleta deve condicionar a sua mente para que transmita somente pensamentos adequados. O lutador necessita de pensamentos positivos e não de negativos.

Afinal, o corpo faz o que a mente “diz”. Se a mente “diz” “você não pode fazer”, o atleta não faz, pois a mente “disse” ao seu corpo que não é possível conseguir.

Contudo, se a mente “diz” “você consegue fazer”, será observado incremento positivo no rendimento, que pode até mesmo ser mais relevante que o aspecto técnico em dado momento.

E o que a ciência nos diz sobre isso, ou seja, o que gera normalmente sentimentos mais fortes? A emoção da vitória ou a agonia da derrota? Segundo alguns cientistas especializados no cérebro humano, nosso cérebro é "tendencioso" a ser negativo. Numerosos estudos têm mostrado que as conexões elétricas (neurais) no cérebro são mais fortes e mais rápidas quando estão respondendo a algo desagradável, comparadas às respostas a situações neutras ou agradáveis.

Será que isso pode auxiliar, como explicação científica, a uma antiga frase: "mente ociosa é a oficina do diabo"? E por que o cérebro se comporta assim? A ciência oferece algumas ideias e possibilidades.

Muitos cientistas acreditam que este viés da negatividade ocorra da adaptação evolucionária do homem (história da evolução). A ideia é que há muito tempo, como a espécie humana estava começando a emergir, o mundo era um lugar difícil e perigoso, com eventos climáticos devastadores (geleiras intercaladas com inundações). Aqueles seres humanos que sobreviveram foram aqueles cujos cérebros alertados os protegia dos perigos. Esses seriam nossos antepassados. Essa é a teoria mais aceita para as diferentes respostas do cérebro em função de situações diversas.

Na prática, o fato é que as consequências de responder muito lentamente ou pouco para o perigo iminente muitas vezes é mais dramático e perigoso do que responder lentamente a um estímulo neutro ou positivo. De certa forma, o cérebro negativo está tentando proteger-nos por priorizar o que procura, como ele avalia a informação e como ele nos obriga a agir. Ele faz isso automaticamente, e muitas vezes sem a nossa consciência. Quando apresentado simultaneamente a situação negativa, neutra e positiva - o cérebro naturalmente mantém o foco na negativa, a maior parte do tempo. Isto significa basicamente que se preocupar é o estado padrão de nosso cérebro e que as emoções negativas "triunfam" sobre as positivas. Isso já explica muita coisa para muitos atletas, não é?

Agora que você já leu a má notícia, talvez, nenhuma boa notícia que transmitirei agora, trará de volta o seu estado anteriormente alegre...(risos), mas vou tentar. Uma das características mais notáveis do cérebro humano é sua capacidade de aprender e se adaptar.

Temos a capacidade de mudar o nosso próprio nível de felicidade - para cima ou para baixo - e para facilitar um resultado positivo dentro de nós mesmos e melhorar as atitudes mentais e emocionais. Alguns cientistas sugerem que cada um de nós tem o nosso próprio "eu" de felicidade ou de positividade (denominado em inglês de "set point"), e que talvez mais da metade disso é determinado geneticamente. Todavia, independentemente de nossas tendências naturais e predisposições, quase todos os pesquisadores concordam que a psicologia pode mudar o nosso estado de positividade para melhor.

Como conseguir isso?

É preciso reconhecer que o otimismo é uma escolha. Você vai ter de assumir alguma responsabilidade por aquilo que você pretende. Claro que isso não virá naturalmente no início, mas quanto mais você fizer isso, mais vai amplificar os caminhos positivos no cérebro e parar ou silenciar os negativos.

Muitos pesquisadores da chamada "psicologia positiva", muitas vezes comentam sobre três componentes da felicidade:

O primeiro é: localizar e apreciar o que é positivo e agradável em sua vida no dia a dia e "saboreá-lo". Se algo deleita seus sentidos e faz você sorrir ou rir ou sentir-se interessado - pare e preste atenção a essa situação enquanto desfruta da sensação de prazer que ela traz. Sentimento de gratidão e de ser grato também pode promover sentimentos positivos.

O segundo componente é o de tornar-se mais "engajado" em tudo que está fazendo. Muitas vezes, quando realiza uma técnica de luta, é fácil separar mentalmente e apenas reproduzir os movimentos, em vez de tentar concentrar-se e perceber a experiência do que você está fazendo, sem qualquer outra distração. Não pense demais ou analise em excesso, apenas sinta e tome consciência física e mental do que você está fazendo no momento.

O terceiro componente da felicidade reside em encontrar maneiras de perceber sua vida como mais significativa. Existe um recurso na "psicologia positiva", que sugere que você faça um inventário (histórico) de suas próprias forças (coragem, compaixão, humor, etc.) e procure por novas maneiras de utilizá-las para atingir suas metas ou para ajudar os outros.

Durante a semana seguinte, tente considerar (e escrever), esses passos simples e práticos para tirar do foco seu cérebro - e pensamento - negativo. Pegue um pedaço de papel para cada dia da semana. Você não tem de escrever uma narrativa. Apenas deve escrever uma nota rápida para si sobre cinco coisas:

1) Escreva uma bênção ou uma coisa em sua vida (ou o que aconteceu nesse dia) para a qual você é grato;

2) Escreva uma coisa que você observou durante o dia, que lhe trouxe prazer;

3) Identifique uma pessoa que você é grato e feliz por ter em sua vida. Tome um minuto para pensar sobre o porquê. Considere a possibilidade de dizer a pessoa que você gosta dela;

4) Faça algo agradável para alguém, seja um amigo ou um estranho;

5) Tome 1-2 minutos para respirar profundamente e permitir que todos os seus músculos relaxem. Concentre-se apenas na sua respiração.

Você pode achar que ser feliz, positivo ou otimista é um trabalho difícil, pelo menos no início da aplicação dessas técnicas. Mas, sinceramente, vale a pena o esforço em sobrepujar pensamentos negativos com pensamentos positivos! Sua felicidade e a volta de sua confiança nos treinamentos técnico-táticos e físicos, serão a origem dos pensamentos negativos que passarão a atormentar seus adversários...


Leandro Paiva


Referências:

1) Paiva, L. Pronto Pra Guerra: Preparação Física Específica para Luta e Superação. Amazonas: OMP Editora, 2009;

2) Borum, R. Re-Train the Negative Brain. Black Belt Magazine, p. 48-50, 2008.

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