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Vale-Tudo e Capoeiragem



Para quem ainda não conhece o ilustre amigo capoeirista dos mestres Carlson Gracie e João Alberto Barreto, posso apresentar: André Luiz Lacé Lopes. É jornalista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Syracuse, em Nova York. Também é mestre de Capoeira. Nos presenteou com um magnífico material no qual contém diversos artigos, fotos, crônicas e vídeos sobre capoeira. Um deles despertou - e muito - a minha atenção. Uma pasta intitulada "Vale-Tudo e Capoeiragem". De lá, pincei a excelente crônica escrita pelo Mestre André Lacé, na qual apresento adiante para os leitores deste blog. Bom proveito!

Leandro Paiva


VALE-TUDO & CAPOEIRAGEM

Autor: André Luiz Lacé Lopes

Pelo telefone, recebo solicitação de entrevista para um "curta metragem" sobre Capoeiragem, Vale-Tudo e Jiu-Jitsu (sobretudo dos Gracie) no Rio de Janeiro.

Interessante projeto de uma equipe francesa. Aceitei, com uma condição, e adiantando que nenhum trabalho deste tipo estaria completo sem entrevistar os Professores Rudolf Hermanny e João Alberto Barreto, sendo, também, aconselhável filmar algumas boas rodas entrevistando os respectivos mestres.

O coordenador dos trabalhos aceitou prontamente minha sugestão e parte da condição que impus: trazer uma boa garrafa de vinho da França e comprar um cohiba no free-shopping de um dos aeroportos, ou do Charles De Gaulle ou do Tom Jobim. A equipe, antitabagista, achou por bem trazer apenas um excelente vinho. O que foi feito, sendo devidamente incorporado à adega da Dra. Arly que, especialista, explicou que o momento pedia vinho branco.

Toda esta história nos proporcionou um final de semana absolutamente extraordinário. Começando na quinta-feira, numa tripla entrevista, comigo, com o Hermanny e com o João Alberto. Hermanny, único capoeirista que lutou (luta de verdade) mais de uma hora com lutador de jiu-jitsu.

Hermanny, membros da equipe de reportagem, André lacé e João Alberto Barreto


João Alberto, que venceu todas as lutas de vale-tudo que fez, fazendo questão de só usar o jiu-jitsu, muito bem aprendido com a Família Gracie. João Alberto teve, também, um interessante confronto com Mestre Artur Emídio de Oliveira, foi árbitro de confrontos entre capoeira e jiu-jitsu e, como psicólogo, é autor de um extraordinário livro sobre Psicologia do Desporto (já fez palestras para mestres de capoeira).

Se quinta-feira foi marcante, sexta-feira não ficou atrás. Para começar havia roda de qualidade por todo Rio de Janeiro! Só no histórico bairro da Lapa, duas grandes rodas, do Quilombo do Mestre Arerê e do Grupo Senzala, na Fundição Progresso. No Méier, Mestre Grilo fazia sua grande roda mensal, e, em Bonsucesso, Mestre Cabide promovia uma roda internacional, com presença do seu amigo Mestre Camaleão (Marseille).

Vejam vocês, depois dos espetaculares lançamentos itinerantes do livro - "Capoeiragem: Expressões de Uma Roda Livre - que Mestre Russo de Caxias (Sr. Jonas Rabelo) promoveu na semana passada, temos uma semana dessa.

Optamos por visitar, até por falta de tempo, apenas duas rodas, a do Mestre Arerê e a do Mestre Grilo. Opção que se mostrou acertada, em que pese a dificuldade no trânsito, pois foi uma verdadeira e rara noite de excelente capoeira. Sendo que, na Roda de Mestre Arerê, a equipe foi surpreendida com uma exuberante demonstração de Tambor-de-Crioula, parente, sem dúvida da capoeira, mas sem relação alguma com vale-tudo. Mas, o fato é que os franceses ficaram absolutamente encantados e, conseqüentemente, com um grande problema nas mãos: como fazer um "curta" com tanta coisa boa gravada?

Guardando as proporções, sinto o mesmo problema neste momento, pois este fim de semana pediria um livro e não apenas uma crônica.

Voltei a defender o que sempre defendo, bem fundamentado e bem intencionado. O que falei está em meus artigos e nos meus livros (que a equipe já tinha lido). Está também no meu site que, finalmente, está no ar.

Professor Rudolf Hermanny. Ao contrário de alguns mestres muito falantes, quase falastrões, Hermanny não é de falar muito. Mas a equipe estava bem municiada, inclusive com o livro que a Universidade Estácio de Sá escreveu sobre ele. O que os capoeiras do Brasil não estão fazendo, os capoeiras de fora farão, ou seja, reconhecer a grande e fundamental importância de Hermanny na verdadeira História da Capoeira (há muito marketing na história fantasiada que corre o mundo...).

Professor João Alberto Barreto tem muita, muita história, e sabe contá-la muito bem. Foi o que fez.

Acompanhou, fora e dentro do ringue a fase áurea da Saga Gracie (os grandes pioneiros dos atuais eventos de Mix Martial Art; já escrevi sobre isto quando visitei, anos atrás, a Academia de Rorion e Royce em Los Angeles). O que significa que João Alberto vivenciou também a evolução da prática do vale-tudo do Subúrbio do Rio e do nordeste que sempre produziu grandes lutadores.

Tanto assim que, bem orientada, a equipe francesa, antes da entrevista em minha casa, praticamente na mesma rua (Leblon/Lagoa), entrevistou o campeão baiano Minotauro (Antônio Rodrigo Nogueira), há algum tempo radicado no Rio, treinando na academia Brazilian Top Team). Foi de João Alberto a frase "Capoeira Regional não ficaria em pé na minha frente mais de dez segundos".

Frase sem intenção de ofender, até porque não é o feitio do Professor Barreto, apenas um alerta sobre a ineficácia dos atuais movimentos e pulos rápidos. Com um opositor bem mais fraco, claro, dará certo, mas com um opositor de categoria, experimentado em outra luta, com resistência para lutar dez, quinze minutos, seria um desastre.

Que capoeirista da regional ousaria enfrentar o "casca grossa" Minotauro ou o não menos extraordinário paranaense Vanderlei Silva (aliás, meu conterrâneo)? Mesmo que a bolsa fosse de milhões de dólares ou euros? Neste momento sempre aparece a conversa que "capoeira é Amor e que mestre, agora, é um profissional, não vai ficar se machucando assim sem mais nem menos". Alguns ainda insistem "que não há luta porque o mestre pode matar seu oponente com alguns dos golpes fatais da capoeiragem". Este "folclore" é que precisa ser revisto com realismo, a bem da própria capoeira na sua porção Luta.

Enfim, Professor João Alberto Barreto é um dos nomes que deve participar de todo reunião séria (seminário, congresso etc) sobre os destinos da capoeira-desportiva e da capoeira luta. E mesmo em reuniões sobre a especialíssima capoeira tradicional, também aí, o lutador e psicólogo João Alberto terá sempre muito a contribuir.

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