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Como funciona o Jiu-Jitsu Brasileiro



Arte suave. Quem olha de fora, acha um pouco estranho, mas o jiu-jitsu procura ser exatamente isso: uma luta gentil que, bem executada, não causa danos aos seus praticantes.

A sua definição, em japonês, procura explicar um pouco sobre a mais antiga das artes marciais. No jiu-jitsu tudo pode acontecer, e por isso ele é um dos esportes mais intrigantes que existem. Essa é uma das poucas lutas onde os mais fracos têm possibilidade de derrotar os mais fortes, bastando para tal, aplicar a técnica e o golpe correto.

Os estudiosos das artes marciais vão além, e dizem que o jiu-jitsu é a mais pura aplicação científica em uma arte marcial. Aqui, se aplicam literalmente as leis da física, como sistema de alavanca, momento de força, equilíbrio, centro de gravidade -tudo isso aliado a um amplo estudo dos pontos vitais do corpo humano.

O praticante de jiu-jitsu aprende golpes que forçam o seu adversário a desistir da luta, sem machucá-lo. Para tanto, os lutadores de jiu-jitsu treinam golpes que imobilizam os seus oponentes. A idéia básica no jiu-jitsu é utilizar o peso e a força de seu adversário contra ele mesmo. E, um dos pontos que mais o diferem das outras artes marciais está no fato de que, no jiu-jitsu, a grande maioria das finalizações acontece no chão.

Infelizmente, episódios negativos protagonizados por alguns que se dizem praticantes de artes marciais acabaram manchando a imagem do esporte e muita gente ainda associa o jiu-jitsu a uma luta agressiva e violenta. Mas, se voltarmos à definição inicial de arte suave e unirmos a ela a história dessa arte marcial, que tem nos monges budistas indianos os seus primeiros praticantes, veremos que a realidade é outra.

Neste artigo você ficará por dentro da história do jiu-jitsu, regras e categorias de competições, sistema de graduação, técnicas e golpes utilizados e muito mais.

História do jiu-jitsu

Os primeiros indícios do jiu-jitsu surgiram na Índia, antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo. Naquela época os monges indianos eram proibidos (de acordo com a sua religião) de utilizar armas, porém, durante as suas longas caminhadas, eram constantemente atacados por bandidos das tribos mongóis do norte da Ásia.

Já que não podiam defender-se com armas, os monges criaram um método de defesa corporal. Como eles conheciam muito bem os pontos vitais do corpo, desenvolveram um tipo de defesa baseada nesses pontos. Sua técnica baseava-se no sistema de articulação do corpo e nos princípios do equilíbrio.

Depois da Índia, o Japão foi o primeiro país a ter praticantes de jiu-jitsu. Isso se deu em função da expansão do budismo, fazendo com que muitos monges migrassem para o Japão. E foi lá, no Japão, que o jiu-jitsu passou a ser conhecido como “arte suave” e tornou-se popular, sendo praticado não mais apenas pelos monges, mas até mesmo por nobres.



Muitas pessoas também se especializaram nessa arte marcial e tornaram-se mestres. No final do século XIX, alguns mestres do jiu-jitsu partiram do Japão para outros lugares e passaram a viver do ensino da arte marcial e das lutas que realizavam.

E foi assim que o jiu-jitsu chegou ao Brasil. Esai Moeda Koma, mais conhecido como Conde Koma, foi um desses mestres que deixou o Japão para trás e seguiu em busca de divulgar a arte nos quatro cantos do mundo.

Depois de viajar e lutar em vários países da Europa e da América, Koma chegou ao Brasil em 1915, em Belém do Pará. No ano seguinte ele conheceu Gastão Gracie que era pai de oito filhos, cinco homens e três mulheres. Logo os dois ficaram muito amigos e Conde Koma passou a ensinar o jiu-jitsu para o filho mais velho de Gastão – Carlos Gracie.




Carlos era um menino franzino e o jiu-jitsu mudou radicalmente a sua vida. Aos 19 anos ele mudou-se para o Rio de Janeiro juntamente com sua família e tornou-se lutador profissional e professor de jiu-jitsu. Durante alguns anos, Carlos viajou para São Paulo e Belo Horizonte ministrando cursos e disputando lutas.

Em 1925 ele voltou ao Rio de Janeiro e abriu a primeira Academia Gracie de Jiu-Jitsu. Ao lado de seus irmãos Oswaldo e Gastão, Carlos assumiu a criação dos menores, George e Hélio, que na época estavam com 14 e 12 anos, respectivamente.

Desde então, Carlos passou a transmitir todos os ensinamentos do jiu-jitsu para os seus irmãos. E as aulas não ficavam apenas na arte marcial. Carlos fazia questão de transmitir sua filosofia de vida, que incluía uma alimentação bastante saudável para os padrões da época. Carlos chegou até mesmo a criar a Dieta Gracie, cujo princípio básico era reduzir o excesso de acidez na alimentação. Juntos eles aprimoraram e desenvolveram novas técnicas do jiu-jitsu que tornavam a luta possível para o tipo físico de qualquer pessoa - até mesmo para os “franzinos” Gracie.

Ao enfrentar e derrotar adversários 20 e até mesmo 30 quilos mais pesados, os Gracie ficaram famosos em todo o Brasil. A luta praticada pelos Gracie era diferente. Os japoneses praticavam e davam ênfase às quedas, enquanto que o jiu-jitsu dos Gracie buscava a luta no chão e os golpes de finalização.

Assim, nasceu o “jiu-jitsu dos Gracie” que mais tarde tornou-se o jiu-jitsu brasileiro, luta e arte marcial reverenciada em todo o mundo. Dizem os praticantes que o jiu-jitsu brasileiro é o melhor do mundo, pois a luta inclui muita ginga e jogo de quadril, coisa que poucos povos, além dos brasileiros, possuem.

E foi o jiu-jitsu brasileiro, por sua vez, que deu origem ao MMA – Mixed Martial Arts. Para provar a eficiência do jiu-jitsu, Hélio Gracie lutou contra oponentes muito mais fortes e pesados do que ele e em lutas sem regra alguma (o chamado “vale-tudo”). As lutas terminavam quase sempre no chão, com a vitória de Hélio, sem que o lutador tenha aplicado qualquer golpe traumático, como um chute ou pontapé -as lutas eram finalizadas (o adversário desiste).

Hélio foi muito feliz em sua estratégia de divulgação do jiu-jitsu. Rapidamente todos os lutadores de Vale-Tudo passaram a treinar o jiu-jitsu e se aperfeiçoaram na luta de chão. Atualmente não vale tudo no Vale-Tudo e o esporte é conhecido mundialmente como MMA – Mixed Martial Arts, onde quase sempre vence aquele que domina, e muito bem, as técnicas do jiu-jitsu da família Gracie.

Técnicas e golpes de jiu-jitsu

O jiu-jitsu possibilita a um adversário mais fraco vencer um adversário mais pesado através do uso de uma boa técnica. O praticante de jiu-jitsu aprende golpes que forçam o seu adversário a desistir da luta, sem que seja necessário machucá-lo.

Os golpes mais freqüentes no jiu-jitsu envolvem as articulações, estrangulamentos, imobilizações, torções e alavancas. Os golpes válidos são aqueles que procuram neutralizar, imobilizar, estrangular, pressionar, torcer articulações e lançar o adversário ao solo através de quedas. Existem, porém, golpes que não são válidos e são considerados desleais, como morder, puxar cabelo, enfiar os dedos nos olhos, atingir os órgãos genitais ou ainda torcer dedos.

Conheça algumas das técnicas mais aplicadas:

- Projeção/queda

É qualquer desequilíbrio do adversário que faça-o ser projetado ao chão, tanto de costas como de lado. Na luta em pé, é válido quando o adversário cai na área de segurança, desde que o atleta que aplicou o golpe tenha dado início ao mesmo com os dois pés dentro da área de combate.

- Baiana

O atleta agarra nas pernas do adversário levando-o ao chão.

- Passagem de guarda

É quando o atleta fica por cima do adversário. Ele pode até mesmo estar entre as pernas do adversário, preso ou não. Se ele estiver por cima de apenas uma perna e preso pela outra, é considerada “meia guarda”. A passagem de guarda propriamente dita ocorre quando o atleta toma o lugar do adversário, mantendo-o dominado e deixando-o de lado ou de costas para o chão.

- Pegada pelas costas

Ocorre quando o atleta pega seu adversário pelas costas, apoiando os seus calcanhares nas coxas do adversário. Para valer ponto, os dois calcanhares devem obrigatoriamente estar pressionado a parte interna da coxa do adversário.

- Joelho na barriga

Ocorre quando o atleta que está por cima do adversário coloca o joelho na barriga dele. Nesse momento a outra perna deve estar flexionada, com os pés no solo. Além disso, é necessário segurar o braço, a gola ou a faixa do adversário, dominando-o completamente.

- Montada

Acontece quando o atleta monta em cima de seu adversário, deixando seus joelhos e pés no chão. O adversário poderá estar de frente, de lado ou até mesmo de costas. A montada poderá acontecer sobre um dos braços do adversário, mas nunca sobre os dois – nesse caso não será considerada válida.

- Raspagem

Ocorre quando o atleta que está por baixo, consegue prender o seu adversário dentro de suas pernas e rapidamente desequilibra-o para o lado, invertendo a posição. Só é considerado válido como raspagem se o golpe tiver início dentro da guarda ou meia guarda (prender o adversário por apenas uma perna).



Para aplicar os golpes, os lutadores precisam de muito treino. Um lutador de jiu-jitsu precisa ser muito rápido, flexível e ágil. Normalmente as aulas têm início com aquecimento, explicação da técnica/golpe e, em seguida, os alunos de jiu-jitsu lutam uns com os outros procurando aprimorar o golpe.

Regras e competições

A modalidade de jiu-jitsu na qual os praticantes lutam contra adversários durante uma competição é chamada de jiu-jitsu desportivo. No jiu-jitsu desportivo não se aplicam golpes traumáticos, e sim torções, imobilizações, projeções, etc.

Quem organiza as competições de jiu-jitsu em território nacional é a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, que foi fundada em 1994, por Carlos Gracie Júnior. Em março de 2007 foi fundada também a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo. Juntas, elas criaram o regulamento de competições que já está bastante consolidado e serve de modelo também para competições internacionais.





Área de competição

Também denominada de ringue, a área deve ter entre 64 e 100 m2, sendo que obrigatoriamente 36 m2 devem ser de área interna (área de combate). O restante é chamado de área de segurança. Os tatames da área de segurança devem ser de cor diferente dos tatames da área de combate.



Sistema de graduação

As faixas branca, cinza, amarela, laranja, verde, azul, roxa e marrom são divididas em 5 níveis de graduação - faixa lisa e mais 4 graus, sendo de responsabilidade do professor conceder esses graus em cada uma dessas faixas. Já a faixa preta é subdividida em sete diferentes níveis de graduação: faixa preta lisa e mais 6 graus que são concedidos exclusivamente pela IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation).

Um atleta que é faixa preta só pode requerer a faixa vermelha e preta após 7 anos no 6º grau da faixa preta. O mesmo vale para o atleta da faixa vermelha e preta requerer faixa apenas vermelha. A faixa vermelha 10º grau é conferida apenas aos pioneiros do jiu-jitsu: Carlos, Oswaldo, George, Gastão e Hélio Gracie - os irmãos Gracie.

Arbitragem e placar

Cada combate é conduzido por um árbitro central, que por sua vez é supervisionado por uma comissão de arbitragem. De acordo com a técnica e golpe aplicado, o árbitro faz determinado gesto que é interpretado pelo mesário, que por sua vez lança a pontuação no placar. Não há empate no jiu-jitsu – toda luta é decidida por desistência, desclassificação, perda dos sentidos, pontos ou vantagem. Veja como funciona a pontuação:

• Vantagem: após o término do tempo da luta o árbitro poderá dar uma vantagem para o atleta que estiver em posição que vale ponto, ou para o atleta que estiver em uma posição de finalização encaixada.

• Ponto: para o atleta receber um ponto, é necessário que ele domine o adversário por 3 segundos na mesma posição.

Equipamento

Os competidores de jiu-jitsu devem obrigatoriamente utilizar quimono. Os quimonos podem ser de cor preta, azul ou branca e não podem ser misturados, ou seja, a calça tem que ser da mesma cor do paletó. A faixa deve ter entre 4 e 5 cm de largura e deve ser amarrada na cintura com um nó duplo, impedindo o paletó de ser aberto.

Não é permitido o uso de camiseta sob o paletó, assim como sapatilhas e protetores de orelha. As unhas devem estar curtas. Isso mesmo, antes do início da luta o medidor verifica o tamanho do comprimento das unhas dos lutadores assim como o estado da faixa e do quimono, que devem estar devidamente limpos.

Competições

O Campeonato Brasileiro é o evento mais tradicional da CBJJ, pois engloba todas as faixas etárias e graduações. Outro evento bastante consagrado no Brasil é o Campeonato Brasileiro em Equipes, no qual cada academia pode inscrever uma equipe com sete atletas, sendo cinco titulares e dois reservas. O técnico de cada equipe enumera seus lutadores de 1 a 5 e na hora do confronto , luta o 1 com o 1, o 2 com o 2 e assim por diante. A academia que obtiver três vitórias em cinco confrontos avança na chave.

Outras competições também são famosas no esporte, como o Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu, que desde a sua criação, em 95, só não foi realizado no Brasil uma única vez (2007). Além do Mundial, outros torneios reúnem grandes lutadores como o Campeonato Europeu, Campeonato Asiático, Campeonato Pan-Americano, além do Campeonato Internacional de Masters e Sêniors.




Curiosidades

• Em 17 de março de 2007 foi criada a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo (CBJJE). Entre os objetivos da CBJJE está o lançamento de um projeto que contemple competições internacionais, visando os Jogos Olímpicos.


• Jiu-jitsu também é para mulheres. As artes marciais estão cada vez mais sendo praticadas por mulheres e o jiu-jitsu, não fica atrás. Entre os benefícios procurados pelas mulheres estão a defesa pessoal e excelente gasto calórico – em uma aula de uma hora de jiu-jitsu uma praticante pode gastar entre 750 e 1500 calorias.




• As categorias de peso para competições de jiu-jitsu dividem-se em: galo, pluma, pena, leve, médio, meio pesado, pesado, super pesado, pesadíssimo, absoluto. Clique aqui e confira a tabela de peso masculina e feminina utilizada pela CBJJE.


• Os lutadores de jiu-jitsu sofrem diversos preconceitos. Um deles está no fato de serem confundidos com os famosos “pitboys” – caras fortes, tatuados e que andam ao lado de seus cachorros da raça pitbull e que se dizem lutadores de jiu-jitsu. De acordo com os lutadores e seguidores da filosofia do jiu-jitsu, os “pitboys” não tem nada a ver com o esporte. "O sujeito quando não tem moral, ou não é bem formado mentalmente, faz o que quiser, bate e até mata. Isso é uma questão moral e infelizmente não tem como controlar. Uns têm mais educação do que outros." Hélio Gracie, sobre os pitboys.


• O Brasil é um celeiro de grandes atletas de jiu-jitsu. Entre os destaques podemos citar os campeões mundiais, Roger Gracie, Ronaldo Jacaré e Marcelo Garcia.


• Além da tradição de praticar artes marciais, os Gracie seguem à risca outras duas: ter muitos filhos e batizá-los com nomes que iniciam com as letras R ou S. Carlos Gracie teve 21 filhos e Hélio Gracie teve nove filhos. Robson Gracie, filho de Carlos, tem 11 filhos enquanto que Rórion Gracie, filho de Hélio tem sete. Royler Gracie, um dos nove filhos de Hélio, tem quatro filhas que possuem a letra R nas iniciais de seus nomes: Rainá, Raísa, Rauane e Rarine. Atualmente, existem 147 descendentes dos Gracie.

Fonte: http://www.hsw.uol.com.br/

Um comentário:

  1. Leandro,

    Parabéns! O site tá muito legal. Mas a parte histórica é mais complexa. Tem muita gente pesquisando a história do Jiu Jitsu e descobrindo um monte de informações que nunca foram divulgadas. Por exemplo, você já ouviu falar do mestre japonês Geo Omori? O cara foi um grande lutador nos anos 20 e 30. Seguem alguns sites que devem te interessar: http://www.clubedeautores.com.br/book/147382--GEO_OMORI__O_Guardiao_Samurai
    http://judotradicionalgoshinjutsukan.blogspot.com.br/

    Abs,

    Eduardo

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