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Periodização na Capoeira



Apesar de ser uma luta genuínamente brasileira, classificada como mista (admite-se golpes traumáticos ou de percussão, de projeção e oriundas das "lutas de solo"), existem poucas publicações científicas sobre aspectos físicos na Capoeira.

Em contraste, em referência à produção científica de cunho sócio-cultural esta luta é, sem dúvida, a com maior número de publicações, além, ratifica-se, com maior número de praticantes no Brasil.

Para preencher esta lacuna, apresentamos abaixo as principais informações de artigo recente sobre o tema. Esperamos que sejam de grande valia para os interessados.

Leandro Paiva


Título: Periodização do treinamento desportivo: proposta de um macrociclo para capoeiristas desportivos

Autores: Fábio Barreto Maia da Silva & Tácito pessoa de Souza Junior

Fonte: http://www.efdeportes.com


1. Introdução

A capoeira é uma prática desportiva, na qual se verifica a necessidade de uma metodologia adequada ao praticante que atinge um nível elevado de movimentos. Segundo Verkhoshansky, (2001) a conexão entre o estado físico do desportista e uma dada carga é questão central na teoria e na tecnologia da programação do treinamento. O treinamento da capoeira é direcionado para rodas e batizados, e parece que nas rodas que se desenvolve o aprendizado e a criatividade dos movimentos e acrobacias. O batizado é um evento de cunho competitivo, no qual se demonstra tudo que se treinou, desenvolveu e criou. Os movimentos e acrobacias apresentam um alto índice de complexidade, que exige força, potência, resistência muscular, velocidade, coordenação e flexibilidade, comum entre os que têm um melhor desenvolvimento e domínio motor.

Para melhorar a potência de um atleta, devemos melhorar a força máxima dinâmica e a força de potência desse desportista com o treinamento de força (ZATSIORSHY, 1999; SCHMIDTBLEICHER, 1992; RODACKI, 1994; MORITANI, 1979). Ao que parece, não foi adotado nos treinos contemporâneos um sistema periodizado para capoeiristas desportivos, que executam movimentos e acrobacias com altas intensidades e grau elevado de dificuldade. Com a periodização poderíamos respeitar os princípios científicos da atividade utilizando de meios e métodos planejados para obtenção do rendimento ótimo de um capoeirista ou grupo de capoeira. Este modelo tornaria mais efetivo o objetivo dos atletas, que acabam treinando no dia da competição (batizado), ou executam treinos excessivos poucos dias antes, sem respeitar a supercompensação, podendo chegar aos eventos com algum tipo de lesão, e até mesmo atingir um rendimento ótimo (peak) dias antes ou depois do previsto.

O sistema de treinamento não deve ser baseado na lógica ou experiência empírica e sim nos fundamentos metodológicos do treinamento desportivo, que se utiliza de ferramentas como a fisiologia, bioquímica e nutrição (FRY, 1992; BAKER, 1993; TSCHIENE, 1992; CARL, 1989). O treinamento físico vigente não é focado nos fundamentos da preparação do desportista, conseqüentemente não se avalia, planeja, organiza e supervisiona o treinamento físico, nem se respeita o tempo de estímulo e descanso, volume e intensidade.

O metabolismo energético predominante na capoeira desportiva é o anaeróbio, por apresentar um tempo médio de 8 a 40 segundos. Para que os estímulos sejam aplicados em tempo apropriado, à organização das etapas destinadas ao treinamento, competição e descanso do atleta é fundamental (ZAKHAROV, 1992; TSCHIENE, 1989).

2. Breve histórico da capoeira regional

Nesse trabalho estamos nos apoiando nos moldes da Capoeira Regional criada pelo mestre Bimba que segundo Carvalho (2002) “Bimba criou uma metodologia de ensino, onde a capoeira ganhou um caráter esportivo e passou a ser praticada por pessoas das mais variadas classes, inclusive os intelectuais e a elite”.

Esta criação era tida por todos como uma outra capoeira, distinta da que se tinha na época. Esse novo estilo ganhou a aceitabilidade da sociedade, sendo introduzida nos estabelecimentos de ensino, academias, praças, clubes, centros recreativos, em todo espaço apropriado ou não para a sua prática, sendo uma luta que não precisa de uma estrutura física adequada para elaboração das aulas, diferentes das demais (REGO, 1968).

Foi a partir do Mestre Bimba que a capoeira regional passou a ser praticada nas academias, deixando as praças. Esses fatos propiciaram que a capoeira fosse dividida, obtendo, agora, dois estilos. Com a criação da Luta Regional Baiana, conhecida por Capoeira Regional, o estilo praticado anteriormente passou a se chamar Capoeira Angola, tendo como representante o Mestre Vicente Ferreira Pastinha.

A capoeira foi mais uma vez valorizada pela sociedade com estas medidas tomadas pelo Mestre Bimba, o que contribuiu para que ela começasse a ganhar adeptos, sendo em 1972, reconhecida oficialmente como esporte (SANTOS, 1990).

3. Características da modalidade

Na literatura especializada não se encontra uma característica definida para capoeira, Zakharov e Gomes (1992) referem-se a grupos de modalidades, o primeiro é o de modalidades complexas de coordenação, que “exigem a expressão estética, artística, no cumprimento do exercício de competição (ginástica esportiva e artística, saltos de natação, ginástica rítmica, etc.)”. Os autores oferecem margens para inclusão de outras modalidades como a Capoeira. Parece que nos eventos o metabolismo energético predominante é o anaeróbio, visto que cada apresentação tem um tempo médio de 8” podendo chegar a 1’, quando se impõe alta intensidade esse tempo tende a baixar. Nas rodas a velocidade de execução de movimentos e acrobacias está estreitamente relacionada com a força, potência e a resistência muscular. Devemos estar atentos à flexibilidade do capoeirista, que também e exigida.

Buscando contribuir para a redução da escassez de dados, o presente estudo propõe um macrociclo anual para que os treinos contemporâneos sigam os princípios do treinamento desportivo, e com isso incentivar os capoeiristas desportivos a utilizarem os meios e métodos da preparação física bem como os testes controles para orientação das cargas de treino.

4. Materiais e métodos

A amostra foi composta por 10 capoeiristas desportivos experientes e condicionados na modalidade capoeira regional, com idade média de 24,4 +/- 2,36 anos, que participaram do macrociclo de preparação de 06 meses. Os indivíduos participantes do experimento neste trabalho não são fumantes ou consumidores de qualquer suplemento ou drogas proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional. Este fato foi verificado através de consulta pessoal aos participantes. Antes da coleta de dados, todos responderam negativamente aos itens do questionário PAR-Q (MADER, 2006) e assinaram um termo de consentimento e proteção de privacidade conforme Resolução nº. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil. Este teve 145 sessões de treino e 08 rodas principais que foram utilizadas para este estudo. A coleta de dados foi realizada no próprio ambiente de treino.

O teste de resistência de golpes, no qual foi estipulado um estímulo de 20 segundos de um golpe denominado queixada com pausas de 10 segundos passivo. O material: fita de cor branca, uma haste regulável variando de 1,50 a 1,70 cm. O avaliado se posiciona na posição básica da ginga1 é marcado com a fita o local no chão em que se encontra o pé esquerdo anterior e o mesmo para o pé direito posterior, para delimitar o espaço da ginga para realização dos golpes queixada. A haste de ferro é regulada na altura do tórax do avaliado em posição de ginga; os golpes deverão ser realizados por cima da haste, para obtermos um padrão na altura dos mesmos. O avaliado realiza quantos golpes puder no tempo de 20 segundos, e prossegue as séries até uma redução de 10% no total dos golpes. Finalizada essa 1º etapa realizada no turno da manhã, uma nova aplicação, 2º etapa, para confirmação dos dados é aplicada no turno da tarde do dia subseqüente.

No teste de velocidade de movimentos e acrobacias o estímulo foi de 8 segundos com 20 segundos de pausa passiva. Neste teste cada avaliado elaborou uma seqüência acrobática própria. O material: um cronômetro, e na fase inicial um tatame, nas fases específicas foi retirado o tatame.

O teste para força muscular foi o de uma ação muscular voluntária máxima (1AVMD [1RM]). Segundo propostas de Phillips (2000), sustentadas também por Pereira e Souza Júnior (2005), a utilização correta da terminologia aplicada ao teste de carga máxima seria “Ação Muscular Voluntária Máxima” (AMVM), a qual poderá avaliar a maior força gerada voluntariamente por uma ação muscular voluntária máxima dinâmica (AMVMD) ou estática (AMVME) (SOUZA JUNIOR, 2007). Embora a terminologia proposta por DeLorme e Watkins (1948) seja aceita internacionalmente (1 RM), o entendimento para “repetição” estaria indicando mais de uma execução e, por estarmos expressando a máxima ação muscular em um único movimento, utilizaremos neste trabalho a terminologia proposta em questão. Contudo, quando o número de repetições for igual ou superior a dois, utilizaremos a terminologia repetição máxima (RM).

A testagem iniciava-se após dois minutos de aquecimento. Os sujeitos foram orientados para tentar completar duas repetições. Caso fossem completadas duas repetições na primeira tentativa, ou mesmo se não fosse completada sequer uma repetição, uma segunda tentativa era executada após um intervalo de recuperação de três a cinco minutos com uma carga superior (primeira possibilidade) ou inferior (segunda possibilidade) àquela empregada na tentativa anterior. Tal procedimento foi repetido novamente em uma terceira e derradeira tentativa, caso ainda não se tivesse determinado a carga referente a uma única repetição máxima. Portanto, a carga registrada como 1 AVMD foi aquela na qual foi possível ao indivíduo completar somente uma única repetição (CLARKE, 1973).

A gordura corporal relativa (% gordura) foi calculada pela fórmula de Siri (1961), a partir da estimativa da densidade corporal determinada pela equação envolvendo a espessura de sete dobras cutâneas (JACKSON, POLLOCK, 1978).

No teste do salto vertical com contra-movimento (SV) de Johnson e Nelson (1979) adaptado pelos pesquisadores. Foi permitido ao sujeito efetuar a fase excêntrica, em que o indivíduo executa o mais rápido possível à transição para a fase concêntrica.

A preparação geral desenvolvera de forma equilibrada e harmônica as capacidades motoras, segundo o modelo tradicional, a preparação do organismo, à força, velocidade, resistência e flexibilidade do atleta referente à modalidade (FORTEZA, 1999).

O primeiro momento da coleta de dados para identificação do estado de saúde e aptidão para participação de atividades com esforços físicos intensos do atleta fora realizado na segunda semana da fase inicial. Os demais controles para observação de rendimento foram realizados nas rodas, no decorrer do macrociclo. O segundo momento da coleta de dados para identificação do estado de saúde e aptidão do atleta para iniciar a preparação especial foi realizado no final da fase inicial. Uma terceira avaliação foi realizada no período pré-competitivo sem o teste de 1 AVMD.

Para analise dos dados utilizou-se o programa estatístico SPSS 10, teste Wilcoxon signed-rank test. O nível de significância estatístico adotado foi de p ≤ 0,05.

5. Resultados

Na amostra inicial do presente estudo, foram selecionados 10 capoeiristas desportivos, sendo que desse total todos concluíram o estudo.

Verificou-se que da 2ª até a 17ª semana o teste de 1 AVMD apresentou aumento significativo (p=0,0054), da 17ª para 25ª semana não houve alteração na 1 AVMD.

Quando comparamos o teste do salto vertical, verificou-se que da 2ª até a 17ª semana ocorreu redução significativa (p=0,0058) nos saltos e da 17ª até a 25ª semana houve aumento significativo (p=0,0058).

O teste de resistência de golpes apresentou redução significativa (p=0,0047) da 2ª até a 17ª semana e aumento significativo (p=0,0054) da 17ª até a 25ª semana.

6. Discussão

A periodização utilizada no nosso estudo é habitualmente usada por desportistas, cuja base é constituída pelos exercícios físicos que visam ao aperfeiçoamento máximo das potencialidades do organismo (DANTAS, 1985; KRAEMER, FLECK, 2002; ZAKHAROV, 1992), de acordo com os requisitos da capoeira.

O desejável é estabelecer um modelo o mais próximo possível da realidade da modalidade, no qual proporcione uma adequada variação no volume e na intensidade do treinamento e adaptações anatômicas e fisiológicas. Os testes utilizados neste estudo são acessíveis, práticos e de baixo custo. Até o presente, foge ao nosso conhecimento estudos sobre periodização desportiva na capoeira.

Este estudo sobre treinamento para capoeiristas desportivos explicou como determinada prática induz ajustes que aprimoram o desempenho na referida modalidade. Os resultados obtidos na Tabela 1 demonstram que a estrutura de treinamento inicial promoveu ganhos de força máxima e ligeira queda na potência por ter ênfase no volume em relação à intensidade e de desenvolver capacidades gerais. Foi proposto na fase subseqüente, métodos no intuito de estimular potência e velocidade de acordo com a especificidade da capoeira, visto que a base de força foi desenvolvida nos mesociclos anteriores.

Alguns autores apontam o grau de produção de força como o fator mais importante para aumentar o desempenho no salto vertical, pois, maximiza a velocidade no instante da decolagem. O atleta de capoeira desportiva deve treinar potência, através de exercício pliométricos na fase competitiva, pois, é uma das capacidades físicas predominantes no jogo acrobático. Os resultados do teste de impulsão vertical aumentaram na 25ª semana em virtude de meios e métodos específicos de resistência e potência na preparação especial, pois a base de força foi desenvolvida na preparação geral.

A força máxima dinâmica merece atenção na formação da base de força para o capoeirista. O treinamento de força deve ser praticado similarmente ao gesto da capoeira, proporcionando adequada transferência de força aos movimentos e acrobacias executados.

O teste de resistência de golpes mostrou-se semelhante ao salto vertical com queda na 17ª e aumento satisfatório na 25ª semana, pois com a redução no treinamento de força os capoeiristas tornavam-se resistentes realizando mais golpes na preparação competitiva Tabela 2.

O percentual de gordura não apresentou diferença estatisticamente significativa, porém uma das hipóteses para explicar a diferença na potência, se deve ao leve aumento do peso corporal.

O teste de resistência de golpes deve ser aplicado em outros estudos sobre treinamento de capoeiristas e apresentado na comunidade científica, para melhores ajustes em relação aos estímulos e pausas, pois na bibliografia especializada não se encontra teste para capoeira.

O tamanho da amostra deve ser considerado; no entanto, para início de pesquisa alguns resultados podem colaborar com estudos futuros. O ajuste dos protocolos foi a partir de estudos especializados em treinamento desportivo da estrutura de periodização (GAMBETTA, 1991; FRY, 1992; BAKER, 1993; TSCHIENE, 1992).

7. Considerações finais

Conclui-se que, para os capoeiristas desportivos que desempenham movimentos e acrobacias com alto grau de dificuldade, a periodização apresenta informações pertinentes ao treinamento, tornando mais simples sua organização. Deste modo o treino utilizado hoje por capoeiristas pode ser reformulado com objetivo de alto rendimento. Diante do método tradicional da capoeira, não foi encontrado registro de que o processo de periodização tenha sido empregado a capoeiristas desportivos de forma científica. A otimização do treinamento para capoeira e a conseqüente melhora do rendimento nas rodas podem ser obtidas com a periodização. Esta afirmativa merece ser comprovada por mais estudos na área do treinamento de capoeiristas, como ocorre em outros esportes.

Um comentário:

  1. Não entendo porque a Capoeira não é pesquisada como desporto aqui no Brasil, uma arte nossa, com uma gama de informações em aspectos fisiológicos e gostamos mais de pesquisar seu lado cultural, que é de suma importância, tanto quanto sua aptidão.

    Autor: FÁBIO BARRETO MAIA DA SILVA

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