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Aspectos biomecânicos, fisiológicos e psicológicos das artes marciais






Em artigo recente os autores apresentaram releitura e revisão de diversos fatores científicos relacionados às Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. Para melhor apreciação dos leitores deste Blog, publicaremos na íntegra os principais trechos.


Leandro Paiva



Título: Aspectos biomecânicos, fisiológicos e psicológicos das artes marciais.

Autores: Daniel de Vicenzo; Ana Claudia Vieira Martins; George Roberts Piemontez; Denis William Gripa; Luciana Ferreira.

Fonte: www.efdeportes.com


Introdução

A história da humanidade é repleta de conflitos onde o treinamento dos guerreiros teve papel fundamental. É por este motivo que todas as artes marciais do oriente foram desenvolvidas originalmente como métodos de defesa pessoal. Porém, é difícil precisar esta origem, visto que a história antiga, tanto no ocidente como no oriente, por vezes é difícil de ser estudada devido à existência de poucos relatos escritos e à mistura entre história real e as lendas dos povos antigos (TORRES, 2006).

Contudo, parece existir um consenso entre os autores neste sentido quando se trata de artes marciais, sendo impossível precisar com certeza a origem destas modalidades. Concorda-se que sua origem se deu na Índia, passando para a China e por fim o Japão (THE PICTORIAL, 1975; TEGNER, 1996; TORRES, 2006). Também se sabe que as modalidades de artes marciais, apesar de diferentes entre si, apresentam características em comum. Todas desenvolvem grande controle corporal, quer em equilíbrio, quer em agilidade, força, rapidez e precisão de movimentos (DIAGRAM GROUP, 1981).

Hoje, as artes marciais são praticadas quase exclusivamente como esportes de competição. Na verdade é possível observar que mesmo no passado o combate já constituía esporte, como ocorriam nas olimpíadas da idade antiga, onde atraíam muita atenção do público nos jogos olímpicos (BOGA, 1964). Também os artistas marciais competiam e duelavam entre si, mas a diferença é que então muitos destes combates eram letais. Independentemente do local de origem, muitas destas modalidades evoluíram até chegar a uma tradição esportiva, numa configuração capaz de mantê-las num mundo onde não existe mais a necessidade de grandes confrontos corpo a corpo entre exércitos.

Resultados e discussão

Com base no objetivo do estudo e referencial teórico, as artes marciais emergem três domínios principais: desempenho esportivo e qualidade técnica; disciplina pessoal e autocontrole comumente associados à prática de artes marciais e conhecimento dos riscos de lesão.

Fisiologia

Artes marciais, como esportes envolvendo o contato físico dos participantes durante o treinamento de técnicas desenvolvidas para o combate e tratando-se de esportes competitivos, certamente podem levar os participantes a sofrerem lesões diversas. Neste sentido, convém estabelecer o papel exercido pela pesquisa científica no intuito de preservar os praticantes destas modalidades.

Um primeiro aspecto a ser considerado é se tais modalidades são, de fato, seguras para a prática ou se apresentam demasiado risco aos praticantes. O estudo de Maguire e Burke (2004) apresenta indícios positivos neste sentido. Registrou-se a idade (4 a 48 anos), graduação e aulas por mês dos praticantes, assim como a incidência de lesões até um ano anterior (quantidade e tipo, divididas em: músculo distendido, articulação deslocada, osso quebrado e outras) através de questionários distribuídos em competições regionais de taekwondo. Observou-se que a busca por atenção médica limitou-se aos 42% e que mais da metade das lesões foi de músculos distendidos. As lesões mostraram-se mais prováveis entre os praticantes com idade entre 30 e 40 anos, enquanto o grupo entre 4 e 7 anos de idade mostrou-se menos inclinado a sofrer lesões. O dado mais importante para atestar a segurança da prática foi o índice de lesões encontrado, de 2,6 para 1000. Tal índice foi mais baixo que o registrado pela NCAA (sigla em inglês para Associação Atlética Universitária Nacional) para baseball e softball, demonstrando que as artes marciais podem ser mais seguras que esportes não derivados do treinamento de combate.

Esta pesquisa torna-se particularmente significativa se observada em conjunto com o estudo de Zetaruk et al (2005) que, ao realizar uma análise comparativa de lesões em cinco estilos de artes marciais e usando o mesmo critério para determinar as lesões (ambos os estudos consideram lesões aquelas que impediram os atletas de praticar a determinada modalidade por algum período) registrou o maior índice de lesões justamente no taekwondo, já apontado como seguro por Maguire e Burke (2004). Desta forma, pode-se compreender que mesmo a arte marcial mais propensa a ocasionar lesões ainda é mais segura que outros esportes tidos como perfeitamente razoáveis para a prática, como o baseball e o softball.

Ambos os estudos também apontam que os praticantes mais jovens sofrem menos lesões, sendo que Zetaruk et al (2005) indica ainda menores riscos para os iniciantes do que para praticantes mais experientes, evidenciando que as artes marciais podem ser boas modalidades para se iniciar ainda jovem, sendo apropriadas para crianças e adolescentes.

Aparentemente, o baixo índice de lesões em praticantes jovens parece também relacionado à inexperiência. Isto é, a menor força física aliada a uma técnica ainda pouco desenvolvida não propicia golpes fortes o bastante para ocasionar lesões mais graves.

Possivelmente, treinamentos de alta intensidade, com grande número de repetições de técnicas executadas com potência elevada, possam contribuir para lesões nas estruturas corporais ainda não totalmente formadas de crianças e adolescentes. Entretanto, não há estudos conclusivos a este respeito, embora Zetaruk et al (2005) tenham apontado maiores índices de lesões entre atletas que treinam mais de três horas por semana, indicando que o excesso de treinamento pode ser prejudicial nestas modalidades.

Para evitar as lesões esportivas, um ponto fundamental é conhecer os tipos de lesões mais freqüentes entre os praticantes. Dentre os estudos que verificaram a incidência de lesões nas artes marciais encontra-se os trabalhos de Fugita et al (2004) e Pereira (2001), que investigaram as lesões de judocas. Ambos constataram que mais de dois terços dos praticantes já sofreu algum tipo de lesão durante a prática do judô, sendo que as lesões de ombros e joelhos são as que apresentaram maior ocorrência.

Retomando a questão dos jovens praticantes de artes marciais e relacionando-a a prevalência de determinados tipos de lesão nas artes marciais, Yard et al (2007) investigaram lesões pediátricas decorrentes de artes marciais apresentadas aos departamentos de emergências dos Estados Unidos no período de 1990 a 2003. No total, foram 9346 crianças, com idade média de 12,1 anos (desvio padrão de 3,3 anos), sendo 73% do sexo masculino. Especificamente para os praticantes de taekwondo, das lesões cujos mecanismos são conhecidos, a maioria ocorreu ao ser chutado (34,6%), por queda (20,9%) e ao chutar (18,1%). Os locais de lesão mais comuns foram: porção inferior das pernas/pés/tornozelos (31,8%), mão/punho (22,5%) e face (10,9%). Quanto aos tipos de lesão, foram mais comuns luxações/distensões (33,4%), fraturas (28,1%) e contusões/abrasões (24,3%). Quanto ao judô, os mecanismos conhecidos mais comuns foram ser arremessado/sacudido (32,7%) e por queda (27,3%), enquanto os locais de lesão mais comuns foram ombro/porção superior do braço (19,1%) porção inferior das pernas/pés/tornozelos (16%), e cotovelo/ porção inferior dos braços (14,9%). Os tipos de lesão mais freqüentes foram: fraturas (27,6%), contusões/abrasões (25,4%) e luxações/distensões (24,1%).

Como se pode observar, as diferentes artes marciais apresentam propensões diversas para a ocorrência de lesões, sendo necessário conhecimento das características de cada estilo para que medidas de segurança apropriadas possam ser desenvolvidas. Neste sentido, faz-se necessário, para uma prática mais segura, conhecer os elementos que levam a maiores índices de lesões. Dentre os estudos que buscaram estabelecer as relações das lesões e aspectos da prática, pode-se citar o trabalho de Santos, Duarte e Galli (2001), que buscaram relacionar as lesões reportadas por um grupo de judocas com as variáveis: tempo de prática da modalidade, graduação e um conjunto de variáveis relacionadas ao condicionamento físico. Atletas de maior ou menor experiência ou graduação não apresentaram diferenças significativas quanto à propensão às lesões. Entretanto, aqueles que tiveram piores desempenhos físicos, como pior flexibilidade ou baixa resistência muscular localizada, demonstraram ser mais propensos a incorrer em lesões na prática das artes marciais.

Ainda quanto a fatores predisponentes ao aumento das lesões nas artes marciais Kazemi, Shearer e Choung (2005) abordaram os hábitos e lesões pré-competição em atletas de taekwondo. Os dados coletados indicaram grande presença de dietas e exercícios pré-competição, com muitas lesões ocasionadas em treinamentos, o que novamente parece indicar o excesso de treinamento como um dos fatores importantes para a ocorrência de lesões nas artes marciais.

Uma forma fundamental de se reduzir a ocorrência de lesões em esportes de contato é o uso de proteções apropriadas e a implementação de um regulamento rigoroso para proteger os participantes. Burke et al (2003) comentam que os estudos geralmente em competições de altíssimo nível, com amostragens bastante homogêneas, e onde poucos cuidados com prevenção de lesões foram tomados, resultaram em índices de lesões variando de 25/1000 a elevados 127/1000 exposições (entendidas como participação em uma prática, seja ela aula/treino ou competição).

Burke et al (2003) avaliaram retrospectivamente os índices de lesões em dois campeonatos de taekwondo nos Estados Unidos. Nos campeonatos observados neste estudo, participaram 2498 atletas entre 18 e 66 anos, graduados de faixa amarela à preta e utilizando como proteção pessoal: capacetes, luvas, cotoveleiras e protetores de pés abertos na porção plantar. O regulamento proibia: golpes abaixo da faixa, no rosto e na porção posterior do corpo. Dos golpes permitidos, foi exigido contato leve, sendo que desobediência ao regulamento resultou em advertência para o infrator e pontuação para o oponente. Durante as competições, todos os traumas foram registrados detalhadamente, incluindo dados sobre o atleta e sobre a lesão, permitindo o resgate destes dados pelos autores. Conforme o critério utilizado de lesão como impedimento do atleta de continuar sua participação em razão do trauma, somente um dos quase 2500 participantes sofreu uma lesão. O resultado final, com um índice de lesões de 0,4/1000 exposições, mostrou-se incrivelmente mais baixo que aquele averiguado pelos autores em outros estudos encontrados na literatura, revelando a eficiência da combinação de proteção pessoal adequada, regulamentos seguros aplicados rigorosamente e extensa presença de uma equipe de profissionais de saúde.

Estes exemplos demonstram que, através da investigação científica, é possível conhecer os tipos de lesão freqüentemente presentes na prática das artes marciais, bem como estabelecer suas causas e mecanismos de ocorrência, gravidade e outras características, além de se observar os resultados da implementação de medidas de segurança.

Muitas pessoas não buscam na arte marcial o esporte competitivo, mas interessam-se pela prática de artes marciais como esporte com o objetivo de desenvolvimento da aptidão física, ao mesmo tempo em que obtém habilidades de defesa pessoal. Considerando estes aspectos, a fisiologia desportiva apresenta grande contribuição para o progresso da compreensão sobre as artes marciais. Melhim (2001) em seu estudo com 19 praticantes de taekwondo com idade média de 13,8 anos e em média 10,4 meses de experiência na modalidade, verificou os efeitos benéficos à aptidão cardiovascular gerados pela prática do taekwondo. Mediu-se VO2 máximo, freqüência cardíaca de repouso, potência aeróbia, potência anaeróbia e capacidade anaeróbia antes e depois de 8 semanas de treinamento. Constatou-se que as respostas anaeróbias tiveram melhoria considerável, com aumento médio de 28% na potência anaeróbia e 61,5% na capacidade anaeróbia.

Degoutte et al (2003), em estudo semelhante com a modalidade do judô avaliou as situações de luta. A amostra foi composta por 16 atletas do sexo masculino, com idade média de 18,4 anos, e tempo de prática de aproximadamente 10 anos. As análises feitas através da coleta de amostra sanguínea demonstraram que à mobilização do metabolismo lipídico e protéico durante a luta, mesmo com o sistema anaeróbico entrando em ação, demonstrando que fatores como disponibilidade de carboidratos, adaptação ao treinamento e estresse metabólico podem interferir no uso dos substratos energéticos durante uma luta de judô, corroborando com Lima et al (2003), que obteve resultados parecidos em sua pesquisa, acrescentando ainda que há uma maior probabilidade de erro conforme o aumento da concentração de lactato, estabelecendo uma relação significativa que pode ser entendida como reflexo da perda de concentração do lutador diante da situação estressante.

Outros estudos neste sentido, contudo, precisam esclarecer se outras razões relacionadas à fadiga não poderiam intervir para tais resultados. Por exemplo, o acúmulo de lactato poderia prejudicar o processo contrátil, dificultando a realização das técnicas com sucesso. Contudo, faltam estudos para testar uma hipótese como esta, mas é certo que o aumento da concentração de lactato sanguíneo serve como indicador de esforço, pois a percepção do esforço está relacionada positivamente ao aumento da concentração e ao pico de concentração de lactato durante competições de judô (SERRANO et al, 2001).

Evidentemente, a fisiologia não é única área da ciência a propiciar melhorias para a compreensão do desempenho de praticantes de artes marciais. Porém, é uma área extremamente importante que deve ser mais explorada pelos pesquisadores a fim de dar um maior embasamento teórico as artes marciais.

Biomecânica

Um ponto importante para servir de base para a orientação do treinamento em artes marciais é conhecer a diferença entre as capacidades apresentadas por praticantes ou atletas com diferentes níveis de habilidade, que possam servir de base para estabelecer um padrão técnico conforme as possibilidades do praticante em executá-lo.

Paillard et al (2002) propõem que, uma vez que os atletas treinados mostram-se capazes de reações musculares mais rápidas, coordenadas e eficientes que os principiantes nos movimentos específicos do esporte, é possível que atletas de judô em diferentes níveis competitivos apresentem diferentes níveis de controle postural, visto que este é importante para o desempenho no judô. Para este estudo, reuniram uma amostra de 20 judocas do sexo masculino entre 16 e 19 anos de idade. Todos praticavam judô há um mínimo de 7 anos. O grupo consistia de 9 atletas de nível regional, 9 de nível nacional e 2 de nível internacional, que foram divididos em dois grupos: um de nível regional e outro de nível nacional e internacional. O protocolo de testes de equilíbrio estático em plataforma de força foi realizado com olhos abertos e depois olhos fechados. A avaliação dos resultados demonstrou que, de olhos abertos, o segundo grupo apresenta um maior equilíbrio que o primeiro, enquanto de olhos fechados os resultados dos dois grupos são semelhantes, indicando uma maior dependência de informações visuais dos atletas de alto nível para manutenção do equilíbrio ântero-posterior (justamente o tipo de controle mais usado em competições de judô).

Aprofundando-se na questão do controle postural ântero-posterior dinâmico, Paillard et al (2005) observaram que este poderia influenciar as quedas de judocas, visto que alguns tendiam às quedas para frente enquanto outros às quedas para trás. O estudo relatou uma relação inversa entre a direção da tendência de queda do atleta (para frente ou para trás) e a posição média das suas oscilações ântero-posteriores, desta vez averiguadas dinamicamente, de forma que se pode concluir que o controle postural pode apresentar um papel indireto na determinação da direção das quedas de um atleta, fato particularmente importante considerando que no judô uma queda de costas pode significar a derrota imediata, mas uma tendência de desequilíbrio para frente pode facilitar o uso de certas técnicas pelo oponente.

Uma das particularidades do esporte e outras atividades físicas praticadas com freqüência e durante algum tempo é o surgimento de adaptações corporais a tal atividade física, tanto em termos de fisiologia e condicionamento físico, como em termos de alterações nas estruturas corporais. Paillard et al (2007) e Coan (2006) em seus estudos com praticantes de judô concluíram que adaptações posturais fazem parte do desenvolvimento técnico no judô. Um resultado interessante a ser observado é a alteração específica de certas características em razão do lado dominante do atleta. Além do aspecto postural, há de se considerar sobre isto o aspecto motor e cognitivo.

Buscando estabelecer se o constante treinamento motor estabelece influência sobre a especialização hemisférica cerebral, afetando a lateralidade cognitiva e motora, Mikheev et al (2002), avaliaram 34 judocas faixas pretas com idade média de 25 anos e um grupo controle de 35 indivíduos saudáveis com idade média de 28 anos. Foram coletados dados sobre a postura de preferência para a luta, preferência manual e de pernas, testes do campo visual direito e esquerdo e testes com fones de ouvido emitindo séries de palavras, duas diferentes de cada vez, uma em cada ouvido, para que o indivíduo tentasse depois lembrar-se delas. Os principais resultados indicaram que de fato há uma influência, visto que, em relação ao grupo controle, os judocas deste estudo apresentaram maior envolvimento do hemisfério direito tanto em atos motores como em outras funções cognitivas.

Como se pode observar, as artes marciais envolvem muitos aspectos para determinar a qualidade atlética e a capacidade da execução técnica de seus praticantes. Por este motivo, a preparação de um atleta de artes marciais exige uma abordagem ampla e que contemple variáveis fisiológicas, morfológicas e técnicas.(Franchini, Takito e Bertuzzi, 2005)

Psicologia no Esporte

Muitas pessoas procuram ao praticar estas modalidades o autocontrole, existe uma idéia bastante arraigada de que as artes marciais são uma forma bastante eficiente de estabelecer um grande autocontrole. De fato, as artes marciais têm a si mesmas como um caminho para o controle da mente e do corpo e para tal desenvolvem suas próprias filosofias (DOMINY, 1977). Embora este seja um valor tradicionalmente associado às artes marciais, faz-se necessário considerar uma abordagem criteriosa quanto ao tema para realmente caracterizar o fato perante a ciência. Neste contexto, um grande número de estudos procurou investigar dois tópicos fundamentais para a discussão deste aspecto das artes marciais: ansiedade e agressividade. Tendo em vista a ênfase das filosofias comuns às artes marciais no autocontrole e na não-violência, estas trazem em sua imagem a idéia de redução de perfis de ansiedade e agressividade. Este tipo de estudo está entre aqueles que há mais tempo já se realiza nas artes marciais, em geral confirmando esta redução da agressividade.

A ansiedade ainda é uma expressão comum no esporte e, ao menos nas competições de artes marciais, parece estar bastante presente. Convém salientar, contudo, que atletas mais bem sucedidos tendem a serem menos ansiosos, conforme observado por Chapman et al. (1997), que relacionaram a ansiedade pré-competitiva e auto-confiança com o desempenho em uma competição de taekwondo. Por meio de questionários para a avaliação da ansiedade pré-competitiva e autoconfiança em atletas, puderam observar que os vencedores demonstraram apresentar menor ansiedade cognitiva (expressa em sensações como apreensão e nervosismo ou calma e relaxamento) e somática (expressa em reações fisiológicas e motoras como tremores, tiques, suar frio) pré-competição e maior autoconfiança. Estas avaliações, comparadas ao resultado da competição, indicaram que mais de 60% dos participantes poderiam ser classificados como vencedores ou perdedores usando como base as pontuações obtidas em seus testes. Porém, ainda não foi verificado se o taekwondo de fato auxilia na redução da ansiedade de modo geral. O fato de o estudo ter sido conduzido durante uma competição não permite estimar com precisão a ansiedade-traço dos indivíduos envolvidos, somente ansiedade-estado, a qual provavelmente estaria alterada.

Alguns atletas são mais afetados do que outros pelo estresse competitivo, conforme o estudo de Cerin (2004). A pesquisa investigou o estado afetivo, proximidade da competição e traços da personalidade para averiguar se seriam bons indicadores da direção da ansiedade, assim como o papel das características de personalidade nas relações entre a direção da ansiedade, proximidade da competição e estado afetivo. Contando com 22 sujeitos de pesquisa, com 25 anos de idade em média e praticando taekwondo em média a 6,64 anos. O estudo demonstrou que particularmente os atletas de maior egocentrismo tendem a ser afetados negativamente por sintomas somáticos, emoções negativas e pela proximidade da competição. Isto torna claro que para alguns atletas o treinamento psicológico é uma ferramenta fundamental para que possam melhorar seu desempenho.

Tendo em vista que a relação ansiedade-competição em atletas das artes marciais não difere do padrão encontrado no esporte em geral, surge à necessidade de considerar se de fato a prática de modalidades como o judô e taekwondo apresentam influências significativas sobre o autocontrole, uma vez que este elemento é geralmente tido como integrante do treinamento das artes marciais.

Em termos das respostas orgânicas e psicológicas à competição, porém, parece não haver grande diferença pela prática de artes marciais. Um indicador deste fato é o estudo de Salvador et al (2003) em que analisou as respostas hormonais e psicológicas de judocas com relação à competição. O estudo contou com uma amostra de 17 judocas do sexo masculino com idade média de 19,35 anos e em média praticando judô há 10,41 anos. No início da pesquisa, avaliou-se o condicionamento físico por meio de um teste máximo em cicloergômetro, seguindo um protocolo até a exaustão. Posteriormente, foram tomadas amostras de saliva para avaliação dos níveis de testosterona e cortisol durante períodos de descanso na segunda parte da temporada esportiva, sem que houvesse atividade física 24h antes ou depois da coleta. Os atletas também preencheram um inventário de ansiedade-estado e perfil de estados de humor, além de uma escala quanto às expectativas para a competição. Como resultados principais observam-se os níveis de ansiedade e do hormônio cortisol foram significativamente maiores na competição do que nos períodos de descanso, mas a correlação entre ambos os aumentos não foi significativa; embora a resposta antecipatória da testosterona não tenha sido significativa, ela apresentou um aumento em um grupo de atletas, que também demonstrou níveis mais elevados de cortisol e maiores valores de motivação para a vitória, sendo que estes atletas obtiveram melhores resultados. O estudo sugere uma resposta psicobiológica adaptativa em preparação para a competição. Percebe-se, portanto, que se trata de uma resposta para garantir a eficiência do indivíduo em uma situação de conflito e não permite descartar a noção das artes marciais como promotoras de um maior autocontrole.

Se considerarmos outros elementos além da ansiedade e outras respostas às competições, parece mais claro o potencial das artes marciais neste sentido, como se pode averiguar na pesquisa conduzida por Lakes e Hoyt (2004). O objetivo foi averiguar o efeito do treinamento escolar de taekwondo sobre as habilidades de auto-regulação, que tratam-se de uma questão chave no desenvolvimento e socialização infantil. O estudo contou com 94 meninos e 99 meninas entre o jardim de infância e a 5a série, divididas em dois grupos aleatoriamente, com as crianças de um grupo passando a freqüentar aulas de taekwondo durante 3 meses e as crianças no outro grupo servindo de controle, não praticando a modalidade. Foram realizados pré-testes para avaliar as habilidades de auto-regulação em três domínios: cognitiva, afetiva e física. Após os 3 meses de intervenção, novos testes revelaram que o grupo do taekwondo teve grandes melhorias em relação ao grupo controle em termos de auto-regulação cognitiva e afetiva, comportamento social, conduta na sala de aula e performance em um teste de matemática. Portanto, apesar da ansiedade continuar presente (sendo até importante para competidores), outros fatores justificam a noção de desenvolvimento pessoal e autocontrole associada às artes marciais.

Como evidência adicional, cabe salientar a questão da agressividade, que também já foi bastante explorada em estudos como o de Lamarre e Nosanchuk (1999), em que demonstram que a crença comum sobre as artes marciais é verdadeira: ao averiguar se o judô teria efeito de redução da agressividade, similar ao já encontrado pelos autores em outras artes marciais, observou-se que o tempo de treinamento tinha uma influência significativa sobre o perfil de agressividade revelado nos baixos valores encontrados nos questionários respondidos por praticantes mais experientes. Um fator interessante deste trabalho em particular foi acrescentar-se as variáveis idade e sexo, que geralmente influenciam a agressividade. Enquanto a idade influenciou o resultado significativamente, tendendo os mais velhos a serem menos agressivos, o sexo dos atletas não teve influência significativa nos resultados.

Curiosamente, Lakes e Hoyt (2004) encontraram diferenças significativas em termos da melhoria da auto-regulação relacionada ao sexo, com meninos apresentando melhoras superiores à das meninas, embora os autores apontem diversos fatores que podem justificar este fato, como o fato delas apresentarem menos problemas de comportamento no início do estudo, o instrutor masculino, as aulas mistas e a natureza das tarefas opondo-se ao papel social esperado de meninas.

Ao que indicam as pesquisas, portanto, a prática de artes marciais pode propiciar uma redução da agressividade e um maior controle de respostas psicológicas, afetivas e comportamentais sem prejudicar respostas preparatórias psicológicas e fisiológicas para uma situação de conflito, reafirmando o potencial destas modalidades para o desenvolvimento da disciplina e autocontrole.

Considerações finais

As artes marciais são práxis envoltas em crenças nem sempre afirmadas por meio de informações concretas e por muitos anos professores e praticantes destas modalidades esforçaram-se para manter esta imagem de segredo e mistério, havendo pouco espaço para os pesquisadores. Atualmente, porém, parece existir uma maior abertura, provavelmente advinda do interesse em expandir o já considerável número de praticantes, somado ao fato de que a maioria destas modalidades se tornou formas de esporte competitivo, onde o sucesso se torna mais fácil com a ciência como aliada.

É possível observar que o número de pesquisas científicas publicadas sobre artes marciais têm se tornado maior nos últimos anos. Por causa disto foi possível reunir material na literatura para uma discussão como a aqui apresentada, onde se pode perceber que a ciência ajuda a estabelecer com mais clareza os benefícios e riscos das artes marciais, bem como tornar-se um instrumento importante para o avanço destas modalidades ao fornecer valiosas informações que podem ser usadas para criar procedimentos de segurança, planejar treinamentos para as diversas qualidades de condicionamento físico, habilidade motora e capacidades psicológicas importantes para atletas e praticantes de artes marciais, bem como fornecer evidências concretas sobre elementos constantemente associados às artes marciais, como a evitar comportamentos violentos e um aumento da disciplina e autocontrole.

Mas, apesar do aumento da pesquisa científica voltada para as artes marciais, é preciso considerar que o número de artes marciais existentes é incrivelmente grande e que uma única arte marcial pode apresentar dezenas de escolas, estilos ou variações que dificultam o estabelecimento de informações válidas para as artes marciais como um todo, já que estes diferentes estilos e modalidades certamente apresentarão características próprias. Considerando que por vezes uma única arte marcial reúne milhões de praticantes ao redor do mundo, torna-se claro que, apesar do maior número atual de pesquisas na área, os pesquisadores em geral ainda não demonstram grande interesse nas artes marciais de forma a atender as necessidades de todos estes praticantes.

As artes marciais, que por séculos desenvolveram-se envoltas em segredos, representam um campo riquíssimo para a pesquisa científica, pois ainda existe muito a ser explorado, muitos resultados de pesquisa exigindo maiores confirmações, estudos a serem replicados com outras artes marciais e assim por diante. Mesmo as modalidades olímpicas abordadas neste trabalho ainda carecem de mais estudos, de forma que as artes marciais como um todo representam uma grande oportunidade para os pesquisadores. Embora todo tipo de pesquisa nesta área seja importante, sugere-se em particular que estudos de revisão sejam realizados para as mais diversas artes marciais, desta forma esclarecendo quais os campos de estudo que já estão sendo atendidos e quais são aqueles ainda muito pouco explorados, bem como quais as modalidades que mais exigem pesquisas.

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