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Prática da Psicologia nas Lutas e Artes Marciais

Características de Personalidade de Atletas de Alto Rendimento Praticantes de Taekwondo e Mixed Martial Arts.






Por Jorge Luís Ribeiro (Marujo)*.



1- Qual a característica (emocional – o jeito de ser) de personalidade de um atleta deTaekwondo e Mixed Martial Arts (qual a diferença em relação a atletas de outros esportes)?


Não existem estudos que definem o padrão geral para atletas de alto rendimento.


No campo da educação física e de treinamento esportivo as equipes técnicas convenciona-se a dizer que atletas de alto desempenho devem ser: dedicados, perseverantes, disciplinados, com alta resistência a frustrações, resilientes, etc.



Contudo, a história é rica em exemplos de atletas excepcionais, podemos citar o ex-jogador de futebol Romário de Souza Farias, que não reúne às características convencionadas. Romário, em sua carreira, conquistou todos os prêmios e títulos possíveis, incluindo uma medalha olímpica, marcou mais de 1.000 gols e foi eleito o melhor jogador do mundo por duas vezes consecutivas. Todavia, era conhecido por dormir demais, ser indisciplinado e preguiçoso, especialmente para os treinamentos físicos.

Percebe-se a falta de estudos específicos para definir o perfil de personalidade de atletas de alto desempenho. No caso dos atletas de Taekwondo e MMA (Mixed Martial Arts), podemos imaginar/supor algumas características semelhantes às levantadas pelas equipes técnicas, contudo, encontraríamos exemplos que não se enquadrariam nestas características, e seriam mais semelhantes ao do ex- jogador Romário. Os atletas são diferentes tanto quanto à sua subjetividade e parecidos em função do padrão de comportamento que a sua prática esportiva exige.


2- Através das pesquisas e avaliações psicológicas, pode-se comprovar que o estado emocional de um atleta influi no resultado de uma luta?


Sim, existem diversos fatores psicológicos que podem influenciar de forma positiva ou negativa no resultado de uma competição (luta) e também dos treinamentos. As pesquisas de avaliação psicológica há bastante tempo relacionam características individuais e desempenho em diversas atividades. O estado emocional ou a capacidade de lidar/suportar pressões é determinante conhecido do desempenho, inclusive em testes de conhecimentos, como o vestibular. Qualquer atividade que exija concentração em longos períodos será afetada pelo estado emocional do sujeito, no nosso caso do atleta.


Em diversos esportes profissionais a ansiedade é referida como fator complicador para a obtenção do melhor desempenho do atleta. Não podemos dizer que essa afirmação é válida no contexto das disputas de Taekwondo, pois cada indivíduo reage de forma diferente frente a determinadas situações. Factual é que identificar altos níveis de estresse constantes, instabilidade de humor, baixo nível de evocação e atenção (concentrada, difusa e sustentada), ruminação de pensamentos negativos, ansiedade pré-competitiva e outros fatores psicológicos podem, quando manejados por um profissional especialista em psicologia do esporte, contribuir para melhorar o aproveitamento nos treinos, e conseqüentemente aumentar o rendimento do atleta e de toda equipe, agregando valores diferenciados ao atleta e influenciar diretamente em seu rendimento durante a competição/ combate. Por exemplo, a ansiedade, que é conhecida como a grande vilã de atletas e equipes. É possível afirmar que certo grau de ansiedade, de desejo que aconteça logo o desfecho de toda a ação planejada durante o período de treinamentos: possa ser desfavorável? Ou podemos trabalhá-la positivamente?



Os dados pesquisados indicam que sim para as duas variáveis, mas ainda não podem ser generalizados, pois cada atleta tem seu limiar ótimo para tais variáveis, ou seja, existe uma área limítrofe, uma faixa de controle para cada indivíduo/atleta. Identificar o momento ideal de explosão, determinar como essa ansiedade e outras variáveis psicológicas serão descarregadas em forma de energia positiva, é uma das funções da equipe multidisciplinar: psicólogo do esporte, treinadores/técnicos, preparador físico e outros. Faz parte da tática a ser empregada no combate.


3- Qual seria o melhor estado emocional e psicológico que o atleta deveria subir ao Tatame? O que e como fazer para ele atingir este estado emocional e psicológico ideal? O atleta que entra com a adrenalina lá embaixo, tem mais chances de vencer ou perder? E o que entra com raiva do adversário? Este pode acabar prejudicando todo o seu trabalho mental para a luta?


O estado emocional mais apropriado para um atleta não é necessariamente o mesmo que de outro atleta na mesma modalidade. Por exemplo: alguns pilotos de fórmula 1 dormem no cockpit do veículo até minutos antes da largada, enquanto outros esperam para entrar no carro no último minuto. Nas Artes Marciais observamos situações semelhantes, enquanto alguns atletas dormem até momentos antes do combate/luta (por exemplo, os irmãos Antônio Rodrigo Nogueira “Minotauro” e Antônio Rogério Nogueira “Minotouro”. Outros precisam ser ativados horas antes para atingir seu nível ótimo de adrenalina e outros hormônios do sistema endócrino. Qualquer atleta que esteja com seus níveis psicofisiológicos descompensados tem suas chances de vitória diminuídas.



Da mesma forma, ter raiva ou sentir raiva do adversário pode ser positivo ou negativo, depende das características específicas do atleta. O aspecto positivo é que essa raiva pode ser convertida em força de explosão, o que ajudaria esse atleta a livrar-se de uma situação desconfortável ou liquidar seu adversário; negativa é que poderia gerar um estado de descontrole emocional, levando-o à impulsividade na tomada de decisões colocando toda a estratégia em risco e conseqüentemente perder o combate. Situação esta que pode ser um gatilho psicológico, para que aconteça o que o ex-atletae comentarista do canal Combate Carlão Barreto denomina de “buracos no jogo”, quando se refere à oscilação rítmica na qualidade e no rendimento do atleta. É necessário conhecer o perfil de cada atleta para definir qual a melhor estratégia para ele, a fim de promover uma atuação consistente, robusta e dinâmica; para que se possa identificar com maior clareza e rapidez os pontos cegos dos adversários.



4- O atleta que faz acompanhamento com psicólogo do esporte para suas lutas, leva vantagem sobre aqueles que não trabalham a parte psicológica?


O atleta que possui um acompanhamento psicológico, um programa de psicodiagnóstico esportivo, que nas Artes Marciais podemos assim chamar de Psicofight (psicodiagnóstico da psicologia do esporte de combate), certamente terá larga vantagem sobre o atleta sem orientação e acompanhamento psicológico. Visto que o acompanhamento psicológico não é limitado somente para as atividades esportivas, este trabalho engloba toda a rotina cotidiana do atleta, visa dar suporte: organizacionais, das relações sociais e subjetivas/afetivas/emocionais, que possam desestabilizar seu controle emocional diante de derrotas e também de vitórias importantes. Por exemplo, a conquista de um título muito importante coloca o atleta em posição de destaque, ou seja, de coadjuvante passa a ser o centro da atenção, o alvo a ser batido, ele estará na mira de muitos que estão treinando. Também a dificuldade de lidar com o sucesso e a elevação do poder aquisitivo podem causar distúrbios emocionais, afetivos e de comportamento em suas relações sociais.


Podemos observar o fenômeno acontecendo no futebol e, em um êxodo ao revés, o jogador Adriano (Flamengo), abandonou o futebol europeu, com toda estrutura e qualidade de vida material, retornando às suas origens para restabelecer seu referencial de vida e controle emocional, e outros o sucederam. Nas Artes Marciais, (Taekwondo) observamos o mesmo fenômeno, com atletas que passam por longas temporadas de viagens de treinamentos no exterior e no MMA, já existem casos de atletas que estão no exterior há alguns anos, apresentando sinais der estresse, proveniente do distanciamento de seus familiares, do circulo de amizades e das diferenças culturais.


5- O atleta que vem de derrota e precisa vencer, pode entrar com o estado emocional (psicológico) abalado?


Certamente, existem auto-exigências conscientes que podem desencadear diversos tipos de reações psicofisiológicas, dificultando ou até determinando baixo nível de desempenho, que o levará a derrota. Contudo, essas prevalências conscientes não representam o principal obstáculo para a retomada ou manutenção do sucesso; o risco maior pode ser inconsciente. Segundo Zanluchi, “em uma situação onde uma conquista muito almejada, e pela qual se lutou tanto, e esta preste a concretizar tendo os principais obstáculos vencidos, o maior adversário a ser subjugado pode ser o próprio atleta”. É comum ouvir essa frase: “ Perdi pra mim mesmo”.



Por um simples detalhe, um erro primário, algo extremamente inesperado, põe-se tudo por água abaixo, deixando a vitória escorrer “por entre os dedos”. Destino? Fatalidade? Azar? Ou poderíamos chamar de “auto-sabotagem”? A respeito desse risco Sigmund Freud (1916- Vol. XIV, p. 357-374) dedica o capitulo “os arruinados pelo êxito”. No texto em questão o autor aborda uma questão com a qual se confrontou em sua prática clínica e que chamou muito a sua atenção. Freud relatava exemplos de pessoas que, ao terem em mãos a chance de realizarem seus mais profundos desejos, não foram capazes de levá-los a termo.



“Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem precisamente no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge a realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não há dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem” (FREUD, 1974, vol. XIV, p. 357).



A idéia pode parecer absurda, mas o fato de uma pessoa boicotar-se, ainda que inconscientemente, aparece freqüentemente. Podemos acompanhar pela mídia tal acontecimento em tempo real, como ocorreu com atletas brasileiros em competições esportivas de alto nível, tais como: final de copa do mundo de futebol de 1998, na França, e jogos olímpicos com equipes de ginástica.



“O trabalho analítico não encontra dificuldade alguma em demonstrar que não são forças da consciência que proíbem o indivíduo de obter a tão almejada vantagem proveniente da feliz mudança da realidade. Constitui tarefa difícil, contudo descobrir a essência e a origem dessas tendências julgadoras e punitivas, cuja existência, onde não esperamos encontrá-las, tantas vezes nos surpreende (FREUD, 1974, vol. XIV,p. 357).



O parâmetro que relaciona a dificuldade de ser atleta e atingir o status de vencedor está na dedicação do atleta em seus treinamentos, confiança na equipe que o acompanha e na disposição de “dar-se a conhecer”.


6- E aquele que nunca perdeu, ele entra sempre com medo de amargar a primeira derrota? Isso pode prejudicar seu rendimento?


É natural que ocorram pensamentos catastróficos, todos nós, “neuróticos saudáveis”, temos este tipo de pensamento sem muita freqüência. Pensar em perder a luta, ser finalizado, ou sofrer um golpe contundente e apagar, pode influenciar no rendimento durante os treinamentos sob dois aspectos: negativo, pode causar uma situação de desmotivação e baixa concentração, para executar tarefas específicas durante a preparação, principalmente as repetitivas que demandam o emprego de alta concentração, impedindo a execução dos movimentos com margem mínima de erros; e do ponto de vista positivo, percebendo tais pensamentos, sentimentos e reações fisiológicas como pontos a serem trabalhados para desenvolvimento de habilidade de comportamento adaptativo. A partir do bom manejo da situação, variáveis psicológica, por toda equipe multiprofissional que assiste o atleta, pode-se transformar o medo da derrota em ferramenta de sucesso.


Entrar no tatame, ou em qualquer outra área de competição, pensando em amargar o sabor da derrota pode ser um sintoma psicológico de ansiedade/angústia real e de aniquilamento: um estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de que algum tipo de perigo que se revela indeterminado e impreciso diante do qual o indivíduo se julga indefeso frente à possível desconstrução de sua identidade e de perigo ao seu corpo.


E quando esse atleta está no topo do ranking ou destacado dos demais atletas, suas chances de se manter lá em cima diminui muito em relação ao seu adversário, quando apresenta tais sintomas. Podemos pensar que a distância entre a vitória e a derrota se encurtam quando se delega o mesmo grau de importância para elas; é importante conhecer as limitações físicas e o quanto se pode exigir do corpo em termos de rendimento, no entanto são os fatores psicológicos de cada um que irão determinar o quantum de exigências o corpo irá suportar.


Todavia, um atleta equilibrado emocionalmente, tem plena consciência de que ninguém permanece por muito tempo invicto, salvo casos excepcionais, tais como: o mestre/atleta Royce Gracie e o piloto de formula 1, Michael Schumacher, Anderson Silva, porém todos já provaram o sabor da derrota algum dia, e usam os momentos desfavoráveis em suas carreiras para reverter em crescimento pessoal e aprendizado para aprimoramento de suas técnicas de atuação.



7– O que é possível fazer para melhorar os processos de treinamento, seleção e evolução de atletas de Artes Marciais?


Pesquisas realizadas refletido esta preocupação. Até o momento não existem estudos específicos que definam padrões de personalidade de atletas de alto desempenho no Taekwondo. Porem o realizarmos testes avaliação psicológica com atletas de alto nível, podemos definir se existem e quais são as características de personalidade destes atletas (por exemplo, energia, capacidade de relacionamento interpessoal, auto-controle, respeito à autoridade/modelos, padrões de raiva e controle da raiva) e como essas características podem ser trabalhadas em atletas que desejam chegar ao nível mais alto do esporte que desempenha.



Pode-se dizer que os trabalhos de pesquisa e avaliação psicológica nas artes Marciais, vem atender em parte demandas já citadas nos trabalhos do pioneiro na psicologia do esporte com foco em artes marciais Prof. Dr. João Alberto Barreto e do escritor Leandro Paiva, que dedica um capitulo de seu livro à preparação psicológica no MMA, dando ênfase à presença do psicólogo do esporte como parte integrante da equipe multiprofissional na formação de atletas de alto nível nas Artes Marciais.



Muitas vezes, em ciência, não é possível dar respostas categóricas (do tipo sim/não, certo/errado). Porém com dedicação e sensatez é possível ter respostas satisfatórias.



*Jorge Luís Ribeiro “Marujo”

Psicólogo Clínico e do Esporte

CRP:08/16116

marujopsi@hotmail.com

Cel. Tim: 43-99195174

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