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UFC e lesões cerebrais





As consequências ao cérebro depois de tanto impacto ainda não são conhecidas pelos profissionais de saúde. Por isso mesmo, está sendo lançado um estudo com 500 lutadores profissionais (boxeadores e de luta livre), em parceria com a Cleveland Clinic, nos Estados Unidos. O projeto esta sendo financiado pela bilionária fundação Kirk Kerkorian’s Lincy.

A ideia é justamente entender o impacto físico das pancadas no cérebro dos atletas com a finalidade de melhorar o tratamento das lesões cerebrais. Hoje em dia, sabemos apenas como os danos se comportam no cérebro nos estágios finais, mas sabe-se pouco dos estágios iniciais das lesões e o que acontece com o acúmulo de danos ao passar dos anos. Lógico, cada pessoa reage a pancadas na cabeça de forma diferente, mas isso nunca foi estudado de forma criteriosa.

Os participantes irão se submeter a quatro procedimentos de MRI (escâner cerebral usando ressonância magnética) por ano, antes e depois das lutas. Além disso, terão acompanhamento físico, cognitivo e testes de fala que servirão para monitorar como a atividade cerebral é afetada após traumas no ringue.

A pesquisa tem atraído treinadores de outros esportes e conta com o apoio das associações de boxe, preocupadas com o impacto negativo de grandes lutadores em estados deploráveis depois de uma vida de glória nos ringues. Um exemplo clássico é o lutador Muhammad Ali, afetado com o mal de Parkinson – um ícone do esporte que sobre de imobilidade, tremores e demência.

Um dos objetivos da pesquisa será correlacionar a dinâmica do fluxo sanguíneo, medidas de regiões especificas do cérebro e tamanho da lesão a tempo de informar ao atleta quando é a hora de parar. Espera-se que o estudo traga autoridade suficiente para convencer lutadores seriamente machucados a se retirar dos ringues e aposentar, antes de serem afetados por doenças mais sérias.

Hoje em dia, segundo o regulamento oficial do boxe, apenas um exame de MRI é necessário durante a carreira inteira do atleta. O custo de cada exame fica em cerca de U$ 3.500. Com pouco dados e exames caros, a decisão de parar acaba sendo subjetiva e não intimida o lutador ou a equipe.

O estudo deve beneficiar neurologistas interessados em outras doenças, como Alzheimer, Parkinson e Esclerose Múltipla – todas relacionadas com lesões cerebrais durante a vida do indivíduo. Os resultados serão divulgados publicamente em uma revista científica especializada, mas os dados de cada lutador permanecerão confidenciais. Os pesquisadores acreditam que a metodologia vá incentivar organizadores a exigir o escâner de cérebro como requisito para a licença de luta.

O que não está claro é como será a reação de lutadores (e fãs) ao serem informados que devem abandonar o ringue no auge das carreiras. Não acredito que o estudo irá afetar o desenvolvimento do esporte, pelo contrário, acredito que estudos como esse servirão para fortalecê-lo, aumentando a qualidade nas competições. Nada contra uma luta de MMA, mas eu ficaria mais confortável sabendo que a tecnologia e a neurociência estão auxiliando os atletas, protegendo-os de uma futura vida com demência, depressão ou outro efeito crônico qualquer.


Por Alysson Muotri (biólogo molecular formado pela Unicamp com doutorado em genética pela USP. Fez pós-doutoramento em neurociência e células-tronco no Instituto Salk de pesquisas biológicas - EUA).

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