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Lutadores Olímpicos do Afeganistão


Os sons produzidos pelos três atletas do Afeganistão que irão marcar presença nos Jogos Olímpicos do próximo Verão em Londres são ferozes: os gritos prolongados que fazem ricochete nas paredes degradadas do centro de taekwondo e os golpes de couro no ginásio de boxe.

Num país mutilado por décadas de guerra, não é surpresa que os três atletas, dois homens no taekwodo, um deles medalha de bronze em Pequim Rohullah Nikpai, e a pugilista adolescente Sadaf Rahimi, tenham seguido desportos de combate.

Eels nasceram durante o conflito que ainda existe e a insegurança e pobreza crónicas faz com que as suas condições de treino sejam espartanas, com pouco apoio financeiro, e que tenham de aguentar sem grandes defesas o pior Inverno no país dos últimos 30 anos. “A diferença entre mim e as outras é que eu quero mostrar aos outros países que uma rapariga afegã pode lutar”, diz Rahimi, de 17 anos, através da máscara protectora que lhe aperta as maçãs do rosto, mas que não esconde os seus olhos.

Como Nikpai, Rahimi e a família fugiram para o Irão para escapar da violência e opressão dos taliban, que foram depostos há cerca de uma década. O grupo islâmico promoveu apedrejamentos públicos de mulheres condenadas por adultério no estádio Ghazi, o mesmo onde Rahimi, as suas duas irmãs e as restantes membros da pioneira equipa de pugilismo se treinam diariamente. Rahimi, que mostra os ombros musculados enquanto se prepara para uns assaltos com o seu treinador, diz que tinha medo dos taliban, que baniram as mulheres da educação, desporto e a maior parte das profissões. “Espero que os taliban não regressem e retomem o poder”diz Rahimi, que tem fitas cor de rosa enroladas nos dedos. “Mas se eles regressarem, espero que deixem as mulheres praticar desporto e ir à escola”, acrescenta.

O treinador Mohammad Saber Sharifi, antigo pugilista e activista dos direitos das mulheres no país, diz que Rahimi teve direito a um “wild card” para ir aos Jogos, o que quer dizer que não precisa de disputar a qualificação. Em breve, Rahimi vai deixar as ruas de Cabul e vai viajar para Londres, onde cai continuar o seu treino – o boxe feminino olímpico vai ter a sua estreia nestes Jogos.

Num outro ponto de Cabul, em mais um espaço impróprio para treinos, Rohullah Nikpai, de 24 anos, e Nesar Ahmad Bahawi aperfeiçoam os seus murros e pontapés para o torneio de taekwondo em Londres. Com protecções de peito e costas vermelhas feitas de coletes à prova de bala, o par, que se qualificou para os Jogos num torneio em Banguecoque, acompanha o treino com gritos agudos.

Apesar de ter conquistado a primeira medalha do Afeganistão em Pequim há quatro anos, Nikpai lamenta a falta de condições que o desporto tem no seu país. “Eu e o Nesar não temos um bom sítio para treinar, nem sequer transportes ou electricidade”, lamenta Nikpai, a quem o pequeno aquecedor do ginásio pouco ajuda a combater o frio. As más condições não se limitam ao taekwondo, cujos elementos da equipa olímpica recebem apenas uma ajuda monetária entre os dez e os 14 dólares por mês.

Sharifi, o treinador de boxe, nunca teve um ringue para preparar os seus atletas e diz que os orçametos minúsculos condicionam muito a preparação. “Não nos podemos comparar ao restro do mundo”, observa Nikpai, que começou a praticar taekwondo após ver filmes de artes marciais enquanto refugiado no Irão. Após os Jogos de Pequim, Nikpai foi recebido como um herói e foi convocado para se encontrar com o Presidente Hamid Karzai, que lhe deu um apartamento, um carro e dinheiro.

O comité olímpico do Afeganistão espera que o país consiga ter mais atletas em Londres, na luta, no judo e no atletismo. “O nosso país foi destruído pela guerra. Os nossos atletas têm problemas económicos e de segurança, mas estamos a contar com medalhas”, diz Zahir Akhbar, presidente do comité olímpico afegão.

Bahawi, que vai fazer a sua estreia olímpica em Londres, começou a praticar taekwondo por imposição dos pais porque estava sempre a dar pontapés nos amigos. Para o jovem de 25 anos, o sucesso desportivo é daquelas coisas que pode melhorar o Afeganistão. “O desporto traz uma mensagem de paz e estabilidade”, observa o atleta.

Bashir Taraki, o treinador de Bahawi e Nikpai e do coreano Min Sin-hak, desvaloriza o aspecto marcial da modalidade na opção dos atletas afegãos: “Acho que eles gostam do taekwondo pela sua disciplina que pelo seu lado de luta.”


Fonte: Reuters


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