Prefácio do livro PRONTO PRA GUERRA®
Parabéns, Leandro!
Outro dia o competente e querido amigo Leandro Paiva me desafiou a prefaciar dois livros seus. Um deles, o Pronto Pra Guerra, deverá tornar-se verdadeira bíblia da moderna preparação física voltada para o Jiu-Jítsu, o Mixed Martial Arts (MMA) e o Submission Wrestling.
É peça culta, plena de exemplos históricos e contemporâneos, que aponta caminhos pelos quais um atleta pode maximizar suas potencialidades, podendo mesmo ir além de si próprio, no esforço pela superação que, idealmente, une caráter, genética e técnica.
No auge de minha forma como lutador de jiu-jítsu – segunda metade dos anos 60 a meados dos anos 70 –, tudo que obtinha a mais vinha do esforço individual ou da criatividade dos meus mestres: Reyson Gracie era a sutileza em pessoa, com ou sem quimono e até no boxe; Carlson Gracie encarnava o guerreiro espartano a transformar homens normais em gladiadores; Álvaro Barreto era o método; Oswaldo Alves e Tony de Pádua, a criatividade, buscando objetivamente construir teorias que, a seguir, iam para o test drive. Rolls, fenômeno lutando e criando, exibia espírito curioso e pesquisador, aprendendo quando competia ou ensinava e bebendo o conhecimento alheio como se fosse iniciante no mundo das lutas.
Não existia, porém, a figura do preparador físico específico, fosse para o jiu-jítsu, fosse para outra modalidade de luta qualquer. O judô, por exemplo, contava com o “know how” adquirido em tantas competições e em tantos intercâmbios internacionais, e praticava treinamento físico mais rigoroso que o do jiu-jítsu. Mas não ia ao detalhamento que, por exemplo, o professor Paulo Caruso conseguiu sistematizar. O judô era mais programado que o jiu-jítsu que, individualmente, era e é a arte marcial mais eficaz dentre todas. Ambos, hoje, são altamente tecnologizados, como o karatê, o muay thai, o taekwondo e o kung-fu também o são. E, sobretudo, nota-se que o processo avançou, de tal maneira no MMA, que chega a ser suicida o lutador que, em competição de bom nível, suba ao ringue estribado apenas em sua raça, nos conhecimentos bebidos numa só fonte ou num condicionamento físico aleatório, com todos os músculos trabalhados uniformemente, sem foco e sem estratégia.
A coisa avançou muito, então!
Volto ao meu tempo, para lembrar que, nas academias Gracie, havia um certo ranço contra a musculação. O grande mestre Hélio Gracie apostava na técnica pura e na certeza de que o jiu-jítsu, em si mesmo, oferecia resposta para todas as indagações: fortalecia o atleta, dava-lhe instrumentos para derrotar seus oponentes de quaisquer outras modalidades, fornecia-lhe “gás” para enfrentar os desafios postos a sua frente.
Resultado: muitos de nós burlávamos essa “vigilância” – ele perguntava: “Que braço é esse, campeão? Anda fazendo “maromba”? – e íamos, discretamente, para academias de musculação. No meu caso, confesso, muito mais preocupado em aparecer bem de “shape” na praia do que em melhorar a performance no jiu-jítsu. Afinal, eu era filho da crença de que somente outro lutador de jiu-jítsu poderia bater-me e, mesmo assim, se fosse tão técnico quanto eu e bem mais pesado. Logo, predominava o empírico sobre o científico, a espontaneidade sobre o vigor metodológico.
Essa mesma “escapada”, eu costumava dar na direção de excelentes academias de judô do Rio de Janeiro. Comecei, aliás, no judô, bem menino, na Academia Haroldo de Brito, em Ipanema, sob a orientação do próprio Haroldo, excelente faixa preta de jiu-jítsu; ia na academia do Oswaldo Alves; ia na academia do mestre de Lucca, baixinho, gordinho, porém um prodígio no chão; do Bequinho, do Tourinho e do Eurico Versari.
Fui, a seguir, para o Jiu-Jítsu, onde me firmei. Repito: o intercâmbio com o judô era essencial, embora fruto de iniciativa própria. Visitei dezenas de academias, contudo fui aluno do mestre George Medhi, o querido “Jorge Francês”, que tive a honra de homenagear outro dia, no Senado.
Viajando pelo país, procurava logo uma boa academia e dava uns treininhos. Nada do tipo desafio ou vontade de desmoralizar quem quer que fosse. O sentimento era fraterno. A motivação era ensinar e aprender. Buscar aperfeiçoamento. Fazer amigos.
Foi assim, por exemplo, com o mestre Miura, que se radicara em Brasília e casou com a irmã de grandes companheiros meus, o Marcelo e o Haroldo Meira. E, no Rio, costumava ir à Academia Gama Filho, do inesquecível Pedrinho Gama, para “rolar” com ele, treinar Judô com o Vando e pegar umas “dicas”, em pé, com seu irmão, o campeoníssimo Sansão. Lá, havia um excelente treino sem quimono, liderado pelos mestres Ricardo Calmon e Roberto Leitão. Na Gracie, nós fazíamos de tudo: boxe, judô, jiu-jitsu sem quimono e, claro!, muito jiu-jítsu clássico. Mas os contatos com o mundo exterior eram maravilhosos. Os “rolas" com o Calmon e o Leitão são inesquecíveis. Falando em boxe, não esqueço o tempinho que passei freqüentando a academia do inesquecível Santa Rosa, na Lapa.
Em Brasília, segunda metade dos anos 70, já diplomata, o jeito foi improvisar um tatame na salinha de musculação e começar a preparar alguns seguranças do Itamaraty para ter com quem treinar. Descobri, em seguida, que o Euclides Pereira era segurança do Senado e que lá havia uma academia aparelhada com dojô, um saco e luvas de “bater”, além de alguns halteres.
Passei a treinar com o Euclides, levando meus alunos do Itamaraty, um dos quais chegou a ficar bem “casca-grossa”. Com o Euclides, de quimono, eu ia bem; o quadro se deteriorava um pouco no calção e, vendo-o bater saco era até assustador. Um monstro, que estaria milionário hoje, se tivesse idade para disputar no Mixed Martial Marts. Tanto ele quanto o notável Carlson Gracie e o inexplicável Ivan Gomes.
Fico imaginando esses três cercados de todos os cuidados existentes hoje em dia. De toda essa preparação física detalhada e detalhista, específica e lastreada na ciência.
Tudo mudou muito... e para melhor. O brasileiro, inclusive, está maior, mais forte. Quando eu atingia 65kg, eu me sentia um “cavalo”. E era forte mesmo, para aqueles tempos. Rolls nunca passou dos 70 kg. O famoso e fenomenal Serginho Íris, o Serginho “de Niterói”, ficava entre 76 e 78 kg. Mais para trás, o Waldemar Santana pesava entre 85 e 88 kg. O Carlson não passava, em forma, de 76 kg. Euclides ia pouco além de 80. Hélio ficava em 65. Ivan é que chegou, no Japão, a ter 110.
A tradicional posição do “100 quilos”, que virou, na linguagem das academias, “cem quilo” (sem o “s”) , fazia alusão à capacidade que teria um lutador leve, mas técnico, de se livrar de um incômodo que pesasse “100 quilos”. Ora, para gerar esse peso de “100 quilos” sobre alguém, bastavam os meus 60 e poucos quilos, desde que bem distribuídos sobre o peito e o plexo do adversário. Não era preciso pesar “100 quilos”!
Hoje, qualquer jovem bem nutrido já chega na academia pesando mais de 80 kg, sendo muito comum atingir e até ultrapassar os 100. O nome da posição, então, deveria mudar para “200 kg”, porque 100 correspondia a outro Brasil e a outro tipo de atleta.
Sei que me delonguei. O objetivo, que espero ter atingido, é mostrar que lutadores de alto rendimento dispunham de poucos recursos para derrotar contusões mais graves, até porque não sabiam o valor da musculação e eram empíricos nos alongamentos. Além disso, ganhavam “gás” pelo exercício quase que exclusivo da luta, ao contrário dos seus sucessores, que são programados para render e, por isso, rendem mais do que se rendia antes. E, finalmente, não adequavam – ou otimizavam – o músculo tal, para tirar mais frutos da posição qual.
O resultado está aí, às vistas de todos: lutadores-atletas como Ronaldo “Jacaré”, aliando técnica excepcional ao condicionamento físico perfeito; forças da natureza como Ricardo Arona e Maurício “Shogun”; máquinas de lutar como Wanderlei Silva e Rodrigo “Minotauro”, que bem poderiam ter sido soldados do rei Leônidas, de Esparta; fenômenos como Paulão Filho e Anderson Silva; exemplos de longevidade e sabedoria como Randy Couture e Murilo Bustamante.
Fecho o balaio, fazendo um comercialzinho do jiu-jítsu. Está certo que, atualmente, todos têm de saber de tudo, mas os primórdios do UFC mostraram diferença tão gritante, pela técnica de Royce, que a turma começou a aprender chão e foi lá que surgiu o embrião do MMA. Renzo, com a sua bravura, brilhou e brilha, decidindo, por finalização, a maioria dos seus embates. Minotauro é campeão mundial, graças ao pouquíssimo tempo em que se conseguiu ter aqueles gigantes no solo, depois de apanhar muito. Rickson, em torno dos 50 anos, ainda é capaz de fazer bonito contra o guerreiro Sakuraba – que é muito bom de chão – se tiver de lutar mais uma vez e o seu adversário for esse japonês épico, admirável.
Parabéns, Leandro! Seu livro vai ajudar muita gente. Inclusive quem não pratica luta.
Minha carreira política se sustenta, em grande parte, na garra que o jiu-jítsu me transmitiu. Mergulho de cabeça nas disputas. É como se o Carlson, bem vivo, estivesse ao meu lado gritando: “Levanta, Neto! Sai de baixo! Vai pra cima”... e eu ia. E ainda vou!
Senador Arthur Virgílio Neto
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